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Encontro com pessoas notáveis por Jornal Alternativo - j.alternativo@uol.com.br Fiz 67 anos no começo de junho. Poucos dias antes comecei a convidar para o jantar de aniversário pessoas que são amigos mais recentes, que conheci através do Jornalternativo, entrevistando-as. A maioria delas eu considerava amigos mas não tinha assim uma grande intimidade com vários deles. Mas tinha, e tenho, grande admiração por todos eles. E não é que eles começaram a aceitar o meu convite? Aí fui lembrando de outros ‘quase’ amigos, fui convidando-os e eles aceitando. No dia 6, lá estavam todos em casa: 17 pessoas contando eu e a Sofia (que não cabia dentro de si de tanta satisfação e orgulho). E tínhamos ainda a Ana e a Cláudia na cozinha (embora eu tenha fama de ótimo cozinheiro, desta vez nem coordenei). Havia 11 amigos assim novos e 4 bem antigos. Minha primeira constatação: a gente pode fazer grandes, e novos, amigos a vida inteira, não importa a idade. E claro devemos fazer força para não perder os antigos (não convidei mais amigos antigos, e parentes amigos, porque a sala não comportava). Curiosamente, e sem qualquer planejamento, as pessoas foram chegando e sentando em círculo. Como a maioria não se conhecia, comecei a apresentá-las, dizendo logo que a reunião era temática e o tema era: Encontro com pessoas notáveis (o Gurdjief me ‘plagiou’ uns 60 anos atrás, mas isso não tem importância). E disse que todas as pessoas ali tinham histórias notáveis para contar: uma tinha ganho colinho do Gandhi, quando era criança; outra era amiga do Dalai Lama; outro hospedava o Amit Goswami em casa com freqüência; outra era uma das primeiras professoras de Yoga do Brasil; outro era nigeriano criado no Canadá e dono da melhor gargalhada que eu conheço; e assim por diante. E deveríamos escolher quem começaria a contar uma grande história de sua vida. Sylvia Lakeland, a ‘amiguinha’ do Gandhi, foi a escolhida. E não se fez de rogada: “Meus pais eram poloneses, e decidiram fugir de lá quando o Hitler invadiu a Polônia. Escolheram um caminho complicado e depois de bastante tempo foram parar no Japão. Justo quando o Japão atacou os Estados Unidos. Então fugiram de novo, desta vez para a Índia. Curiosidade: na correria, minha mãe perdeu o único par de sapatos que tinha. E sabem o que o navio cargueiro em que eles estavam carregava? Sapatos! “Na Índia, minha mãe fazia roupas finas, abriu uma pequena confecção e loja, e meu pai trabalhava num banco. E eu acabei nascendo ali do lado do Himalaya. Meu pai, muito preocupado que trocassem a sua filhinha por outro nenê no hospital, andou de lá para cá e descobriu que nesse dia só eu e um menino tínhamos nascido ali. “E poucos anos depois, a casa de meu pai virou lugar de reunião de indianos, que batalhavam pela independência da Índia, e dos ingleses, que já estavam aceitando a idéia. Porque meu pai era neutro, nem inglês, nem indiano, e se dava bem com todo mundo. Assim várias vezes recebemos o Gandhi, o Nehru, o Jina e outros líderes indianos. O Nehru era muito simpático e me dava colo sempre. O Jina mais ainda e lembro até hoje de suas mãos, que eram lindas e muito macias. O Gandhi me impressionava demais, porque, além daquelas roupas ‘estranhas’, ele irradiava luz pelo corpo todo, sei lá se era coisa de criança, mas é assim que eu lembro. De vez em quando ele me chamava e também me dava um colinho. E depois que Lord Mountbatten devolveu a Índia aos indianos, como agradecimento ao meu pai ele lhe deu a nacionalidade inglesa. E o nosso sobrenome – Lakeland – era o nome de seu castelo na Inglaterra! “Fechando as curiosidades: muitos anos depois, viajando pela Europa, senta do meu lado um indiano. Começamos a conversar, falei que tinha nascido na Índia, ele ficou mais do que surpreso e me perguntou onde. Falei e ele ficou ainda mais surpreso. Sabem por quê? Porque o indiano era nada mais, nada menos do que o menino que nasceu na base do Himalaia, no mesmo hospital e no mesmo dia que eu!!!” E agora, Lia Diskin Pois é, a Lia e o Basílio, da Palas Athena, também foram ao meu aniversário. O Basílio ficou devendo uma história (vou cobrar, viu Basílio?) mas a da Lia foi esta: “Anos atrás, fui estudar o Budismo Tibetano em Dharamsala, na Índia, onde fica o Dalai Lama e também o governo tibetano no exílio e muitas instituições da tradição. O Dalai Lama estava viajando e só depois de um mês de minha estada lá é que ele chegou. Estávamos numa rua esperando-o e de repente eu vi todo mundo se ajoelhar e colocar a cabeça, e quase todo o corpo, no chão. Não estava acostumada com aquilo e fiquei sem saber o que fazer. Todo mundo no chão e eu de pé, toda perdida. Aí comecei a rir da situação, um riso nervoso, mas a situação era engraçada. E a comitiva chegando. Até que vi o Dalai Lama andando já perto de mim e continuei rindo e sem saber o que fazer. Até que ele chegou perto de mim, sorriu também e disse alguma coisa como ‘não tem importância’. “Continuei lá mais uns 4 meses, sempre estudando, encontrei o Dalai Lama várias vezes e ele até começou a conversar comigo, querendo saber de onde eu era, o que pretendia, essas coisas. Quando retornei ao Brasil, estive com ele e ele pediu que ajudasse a divulgar aqui a causa tibetana e também o Budismo. E assim a Palas Athena já teve o prazer de trazê-lo ao Brasil três vezes.” E agora é a vez do Rex Thomas, criador da Terapia Nexus: “Bom, depois dessas duas histórias, a minha vale mais por curiosidade. Nasci na Nigéria e poucos dias antes do nascimento estourou a guerra de Biafra. Minha mãe conseguiu fugir para outra cidade e foi direto para o hospital. Meu pai foi preso e levado para o aeroporto, onde ficou deitado, e pelado, na pista, vigiado por homens armados. Ele contou depois que sentiu muita tristeza porque não iria me conhecer e orou muito. De repente, pousa um avião ali perto dele e ele vê descer o seu padrinho, que era chefe da facção oposta à dele (sabe, era aquela guerra de um pedaço do país contra outro pedaço). Ele teve uma ligeira esperança, que logo se foi, porque o padrinho passou por ele, o viu, mas seguiu adiante bem rápido. Aí ele se preparou para ser fuzilado mesmo, perdendo toda esperança. Até que ouviu a voz do seu padrinho no autofalante, ordenando aos soldados da pista que soltassem todos os prisioneiros que ali estavam. “Meu pai correu para me conhecer na outra cidade. Na Nigéria, há o costume de colocar nomes nas crianças relacionados com o momento em que elas nascem. Por isso, minha mãe pretendia me chamar de um nome que significava ‘Que Deus tenha pena de nós!’ Quando meu pai chegou, são e salvo, eles decidiram mudar o meu nome, que passou a ter o significado ‘Com Deus, tudo é possível’!!!” Gente, os meus convidados, além de notáveis, são ótimos de histórias, vocês não acham? Para saber mais de suas atividades, vejam os sites: www.lakelandsylvia.com.br ; www.palasathena.org.br e www.nexusinstitute.com.br BOX Sempre tive um pouquinho de inveja de grandes escritores – como Balzac, Dickens e Dostoievski – que escreveram vários de seus grandes romances em jornais, no que na época era chamado de Folhetim. Agora acabo com a inveja e realizo o sonho: esta seção sairá em todas as edições do Jornalternativo, com o título sabe qual? FOLHETIM |
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