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:: Izabel Telles :: Era uma vez um ser solitário que vivia fechado em sua concha sem coragem de se relacionar com as pessoas ao seu redor e também com aquelas que estavam um pouco mais distantes. Durante a noite, na sua tribo, ao redor da fogueira, o Cacique perguntava sempre por ele e a resposta invariavelmente eram os dedos indicadores de todos apontando para a uma caverna de onde se via uma luz de vela a brilhar iluminando algo que o ser fazia: ele lia ou estudava. O cacique meneava a cabeça como quem diz: Assim entocado este ser não vai aprender a viver. Os outros da tribo queriam saber por quê. E um dia próprio, na lua própria, na posição certinha das estrelas, o cacique ensinou: Vida é movimento. Movimento que surge dos relacionamentos onde as emoções podem aflorar e fluir o tempo todo. Trancado em sua concha este ser não vai sofrer nunca, é verdade. Porém nunca também irá dançar o maravilhoso balé do viver cada momento aprendendo e crescendo com cada sensação que toma o coração dele. Este ser precisa aprender a construir pontes. O tempo foi passando levando folhas secas, trazendo lírios brancos, levando animais velhos, trazendo animais novinhos, girando o moinho de água que amassa os grãos, trazendo dentinhos aos bebês pequeninos da aldeia ... e o ser continuava trancado em sua concha, dormindo cedo e acordando tarde, sem tempo de ver o nascer e o por do sol que por si só já é um espetáculo para o qual vale a pena estar vivo. E... num dia em que a lua escondeu o sol, o cacique bateu as palmas fortes das mãos nos joelhos, levantou num só pulo e decretou: Nem é tarde, nem é cedo. É a hora do agora. E lá foi ele firme batendo os pés na terra calada, em direção à toca do ser. Puxou a portinhola e deu uma ordem: Você tem 3 meses para construir uma ponte. A ponte que vai ligar a nossa aldeia ao resto do mundo. A ponte sobre a qual nossa tribo vai atravessar pela primeira vez o grande rio e conhecer o que tem lá do outro lado. O ser - coitado - se encolheu todo, pôs os dez dedos na boca e deixou o medo tomar conta de toda a sua carne. Mas os olhos do cacique não deixavam margem a perguntas. Isso posto, o ser levantou-se e, aflito, foi com o Cacique conhecer o local onde a tal ponte deveria ser erguida. Estavam então o cacique e o ser contemplando o grande rio. Grande mesmo. Enorme. Esparramado pelo chão, vomitando ferozmente um volume de água que daria para irrigar todos os desertos do mundo. O cacique impávido tinha os braços cruzados na altura do peito. O ser encolhido coçava a cabeça cheia de teias de aranha. Aí, meio sem jeito, com um braço segurando o outro, perguntou ao cacique: Grande Chefe... por onde começo? (na próxima semana leia como o Grande Chefe começa a ensinar o ser a construir a ponte)...
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