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:: Izabel Telles :: O menino que não tinha televisão A primeira coisa que o menino via quando saía da escola era o chapéu do avô. Depois a grande mão de dedos finos abanando para ele. Chegando em casa, o almoço estava pronto. O menino lavava o rosto e todo o braço, desde os cotovelos. E sentava-se à mesa ao lado do avô. O avô fazia-lhe o prato perguntando com uma voz bem baixinha: - Está bom assim? Olhando para uma colher meio cheia de arroz. É o menino que sabe o tamanho da sua fome... E o menino fazia que sim com a cabeça, olhando para a travessa de batatas fritas. E gostava de ver seu reflexo na porta espelhada da cristaleira da sala de jantar. Era como se ele pudesse se ver dizendo sim a si próprio. Aprovando-se. O avô falava no intervalo das garfadas e da sua boca saíam rios caudalosos cortando matas selvagens, índios caçando onças pintadas, cachoeiras escorrendo pelas costas das montanhas. E o avô imitava, vez por outra, o pio da coruja. E o menino sorria confiante ao ver o bico que o avô fazia refletido no vidro espelhado da porta da cristaleira da sala de jantar. Aprovando-o. Na sobremesa, o avô caprichava na conversa e mostrava ao menino como os macacos comiam bananas. Direitinho. Pareciam humanos! E o menino se divertia ao ver o avô comendo banana como os macacos. E via os dois refletidos na porta espelhada. Unidos. Depois do almoço o avô deitava um pouco no sofá da sala. Punha o chapéu sobre o rosto para fazer de conta que era noite. E o menino corria para o quintal a plantar bananeira. E gostava de ver o mundo ao contrário. De pernas para o ar. Um dia, o avô não apareceu na escola. E não tinha almoço pronto na mesa. E o menino viu uma lágrima escorrer pelo seu rosto no vidro espelhado da porta da cristaleira. Só à noite ele saiu da mesa e foi para o quintal. Viu no céu uma estrela e deu a ela o nome do avô. E ela piscou prateada na escuridão do infinito. Depois que o sol foi e voltou muitas vezes, o menino deixou de se sentir tão só. E foi aí que reparou que o chapéu do avô estava em cima da cristaleira da sala de jantar. Foi só neste dia que o pai do menino disse que ele agora poderia ficar com o chapéu do avô. Mas só até o dia em que ele tivesse seu primeiro filho. Ai ele teria que ir buscá-lo na escola... muitas e muitas vezes! Realize V. também o exercício inédito -clicando aqui- que combina a neuroacústica com as imagens mentais positivas e deixe seu testemunho! Clique aqui e confira os testemunhos deixados pelos usuários.
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