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:: Maria Guida :: Mestres e orientadores de discípulos, em muitas vertentes da espiritualidade são unânimes em afirmar que todos aqueles que põem o pé no caminho do autoconhecimento, tomaram essa decisão movidos pelo amor ou pela dor. Eu posso dizer que cheguei a ele pelos dois motivos. E, posso até mesmo arriscar afirmar, que aqueles a quem a dor conduziu, podem, depois de um certo tempo, olhar para trás, e dizer, que havia amor naquela dor. E que os outros a quem o amor guiou, podem também reconhecer alguma dor, naquele amor. A verdade é que não se põe o pé no caminho antes que se esteja pronto para trilhá-lo. Mais verdade ainda é que, até antes mesmo que pensemos em segui-lo, já estamos sendo guiados por aqueles seres de luz a quem escolhemos como guardiões, conselheiros, tutores e mestres. Não importa muito como foi que amor e dor me levaram a colocar o pé no caminho. Ao mesmo tempo em que eu percebia que não havia, para mim, outra escolha, descobria também que sou responsável por tudo o que sou, penso, sinto e faço. Sou responsável agora, e desde o início, em todos os dias de minha vida presente, em todas as vidas passadas, e eternamente. Essa consciência desabou sobre mim, primeiro como uma tempestade, e depois, ao passo em que ela foi sendo paulatinamente aceita por mim, nos diversos níveis de entendimento de minha alma, como uma bênção. Essa consciência de responsabilidade total foi me tornando mais e mais perceptiva. Fez-me espectadora de meus próprios atos. Para além de uma tranqüila aceitação ao que me acontecia no cotidiano, e de uma predisposição para agir de acordo com minhas crenças internas, essa consciência ampliava para mais e mais aspectos de mim mesma. Alguns bastante positivos. Outros nem tanto. Descobri força, coragem, energia, persistência e fé. Por outro lado, o próprio fato de debruçar-me sobre minha essência, me fez perceber facetas menos agradáveis, como orgulho, rigidez, prepotência, preguiça, culpa, e também uma tendência a manipular o outro, através de um perverso jogo, onde se alternavam papéis de vítima e algoz. Compreendi que tornar-me responsável por tudo o que me acontece, significa empreender uma profunda mudança, um saneamento intenso no campo vibratório e nas circunvizinhanças, transformando o ambiente em que vivo e as relações com parentes, amigos e até mesmo conceitos, como lar, casamento, profissão e dinheiro. No começo achei que essas transformações deveriam ser empreendidas a nível mental. Mudar as atitudes, para mim, significava modificar idéias. E era no campo mental onde mais se manifestava a minha rigidez. Cedo descobri que as mudanças não começam na cabeça. Depois de muito relutar, cheguei enfim, ao lugar virtual e físico onde toda a transformação acontece. Num dia como outro qualquer, meditando antes de dormir, coloquei pela primeira vez o pé, no terreno então árido, pedregoso e inóspito do meu próprio coração. Não é preciso dizer o tamanho do choque e o intenso trabalho de reformulação que foi preciso empreender. No coração encontrei medo, abandono, tristeza, mágoa, desapontamento e miséria. Mas havia também dentro de mim a memória de um interior cheio de jardins, com flores e frutos, aquilo que meu coração já havia sido, e, que eu tinha certeza, ainda poderia vir a ser. Havia a promessa de uma paz e um amor infinitos, simbolizados por uma chama trina, minúscula, mas intensa, num dos cômodos abandonados da caverna fria em que havia se transformado meu coração. Trabalhei duro, com a chama violeta e outras práticas que aprendi num disciplinado convívio com a fraternidade branca e os discípulos de Saint Germain. Mas, recitar mantras é apenas uma parte do trabalho. O que importa mesmo, é nunca fugir de si mesmo, enfrentar cada pensamento e sentimento com coragem, aceitá-lo, e conseguir transformá-los em algo que se manifeste como harmonia, cooperação e boa vontade, primeiro dentro de você e depois, em extensão, para o ambiente onde você se move. Há quase quinze anos me reconheço como alguém que decidiu trilhar o caminho do autoconhecimento como única possibilidade de responder aos mais íntimos anseios de realização. E não me arrependo. O caminho conduz a algum lugar que fica além de toda sombra, de toda dualidade, divergência ou oposição. Nele, tudo é parte da totalidade, tudo é harmonia e integração. Nada pode ficar de fora. Tudo faz parte do todo e existe num estado de vir a ser perfeito. Nesse nível de percepção, o mal não existe. Ele é apenas falta de consciência de que o destino de tudo e de todos é vir a ser luz. Em quando afinal, com os dois pés firmemente fixados no caminho, olhamos para nós mesmos, para nosso lado mais negro e insondável, para aquilo que é quase impossível aceitarmos e perdoarmos, compreendemos que o destino de tudo é vir a ser luz, e já não temos medo. Então, entendemos que não é preciso construir o paraíso. Ele está dentro de nós. Basta descobri-lo, acessá-lo e buscar manifestá-lo cada vez mais em nosso mundo.
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