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O vale de Refaim  

O vale de Refaim


:: Acid ::

Veio-me √† mente a prega√ß√£o do Pastor que morreu no acidente da TAM. Passei dias me perguntando o que teria sido aquilo (premoni√ß√£o? retrocogni√ß√£o? viagem astral?) e s√≥ agora a mensagem dele fez sentido. Sim, porque enquanto me detive apenas na mensagem que falava dos corpos enrolados, me esqueci de algo que ficou no meu subconsciente (e no subconsciente de todos os mais de 500.000 curiosos que foram ver): a prega√ß√£o emocionada da mensagem que o esp√≠rito de Deus deixou pra ele. "Ora um pouco mais; Consagra um pouco mais". E ele nos alertou que paira sobre as igrejas da na√ß√£o brasileira um cansa√ßo, um des√Ęnimo... homens de Deus desanimados, alquebrados. Uma fadiga espiritual. E recomenda um pouco mais de esfor√ßo, um pouco mais de determina√ß√£o. Porque estamos no Vale de Refaim, onde enfrentamos gigantes, uma for√ßa monstruosa, antinatural. Assim sendo, devemos estar vigilantes para o perigo.

A primeira vez que ouvi isso achei gra√ßa por conta do nome, da imagem evocada do Velho Testamento (e automaticamente associada √† Menina pastorinha), mas agora a coisa toda entrou em perspectiva. E a prega√ß√£o n√£o foi dirigida ao p√ļblico, e sim aos pastores (ele se virava pra falar com eles) e l√≠deres espirituais em geral. Ent√£o esse alerta serve especialmente para n√≥s, que somos mais ou menos os "donos do nosso pr√≥prio nariz" em termos espirituais, e que estamos nos sentindo "esmagados", fragilizados pelo peso de tanta iniq√ľidade, tanta injusti√ßa, tanta viol√™ncia... Seja qual for nossa orienta√ß√£o religiosa (ou mesmo n√£o-religiosa, apenas √©tica), estamos lutando contra gigantes.

Somos um pa√≠s onde as pessoas n√£o parecem pensar em Deus em suas a√ß√Ķes. Talvez at√© estejamos em um MUNDO sem Deus no cora√ß√£o. Seria √≥timo se fosse que nem na m√ļsica Imagine, de John Lennon, s√≥ que tiraram a moral das religi√Ķes de cena e deixaram as guerras, os pa√≠ses, as promessas e repress√Ķes religiosas, como o para√≠so das mil virgens e o inferno cat√≥lico (restaurado recentemente, inclusive). At√© pouco tempo a Igreja Cat√≥lica fazia um papel social muito bom em "ancorar" as comunidades em torno da religi√£o. E isso ainda pode ser visto nas cidades de interior: Elas s√£o formadas (inclusive geograficamente) em torno da Igreja, que cont√©m uma pra√ßa onde toda a cidade se re√ļne pra comprar, conversar, festejar... e ouvir o serm√£o, onde o padre d√° a Luz, o rumo, a palavra certa para aquela cidade, inspirado por Deus (como deve ter feito Anchieta/Emmanuel desde a funda√ß√£o da cidade de SP). Todos os aspectos da personalidade s√£o trabalhados e exercidos no centro (Self) da cidade, onde h√° o interc√Ęmbio, a troca, sob as asas de uma religi√£o-guia. A imoralidade (no seu sentido mais abrangente) sempre existiu e vai continuar existindo, mas antes era oculta, segregada, n√£o apenas pra se manter um verniz de falsidade (o esteri√≥tipo do padre que vai consolar a vi√ļva n√£o surgiu da imagina√ß√£o de nossos literatos), mas por um respeito √† coletividade, a um ambiente saud√°vel onde se pudesse criar seus filhos. Um senhor me disse que mesmo os bares e gafieiras (onde os malandros "dominavam" e as mulheres de reputa√ß√£o duvidosa iam se divertir) respeitavam os hor√°rios da missa, e s√≥ quando o padre dava as badaladas no sino era que se podia come√ßar a vida noturna. N√£o estou sendo saudosista (isso nem √© do meu tempo) nem quero que isso volte, mas pensem na MENTALIDADE, na simplicidade l√≥gica, do respeito m√ļtuo entre partes antag√īnicas (luz e sombra)... Isso √© lindo, poxa. Quando voc√™ v√™ o filme do Alto da Compadecida com aquele matador altamente religioso, aquilo existe mesmo (ou existia). S√£o √Ęncoras da consci√™ncia que, mal usadas, podem atrasar nossa viagem ou imped√≠-la completamente, mas se n√£o a usarmos tamb√©m n√£o teremos como parar sem ser se chocando em algo! E o fato de todo barco ou navio ter uma √© porque tem um capit√£o que sabe us√°-la.

Estamos sem √Ęncora, √† deriva, n√£o s√≥ espiritualmente como socialmente. E isso se reflete em nossos relacionamentos, sem compromisso, sem moral, sem regras... O "ficar" indiscriminado √© apenas um reflexo das nossas rela√ß√Ķes sociais. O "Deus" da classe m√©dia/alta s√£o as drogas. O "Deus" do nosso pa√≠s √© o governo. Esperamos que ele fa√ßa tudo por n√≥s, nos conserte. N√£o percebemos que somos N√ďS, como sociedade, que estamos quebrados. O Governo √© um reflexo de n√≥s mesmos, do cada um por si, sem compromissos. O Congresso Nacional √Č DE FATO nossa cara, a "casa do povo brasileiro". A TV nos faz o maravilhoso "favor" de irradiar uma vida individualista e consumista pra todos os grot√Ķes do Brasil (mas nem posso reclamar deles... afinal, as pessoas assistem, n√£o assistem? √Č a realidade delas... ou melhor, √© a irrealidade que elas querem ter) e assim come√ßa um ciclo vicioso onde a sociedade alimenta a m√≠dia, que alimenta a sociedade. N√£o se fala mais de √©tica ou de moral na TV. Procuramos apenas culpados, Genis pra apedrejar, botar nossas culpas... como nossos ricos procuram prostitutas pra descontar suas frustra√ß√Ķes... N√£o precisamos nos unir pra criar ou consertar nada, apenas procurar um culpado e xing√°-lo, e poder dormir com a sensa√ß√£o de dever c√≠vico cumprido. A culpa pelo ovo de Ipanema n√£o √© da Narcisa ou do Boni, √© de nossa sociedade permissiva, nossa pr√≥pria estrutura (ou falta dela) que possibilita e incentiva que todos n√≥s joguemos "coisas" que temos em excesso uns nos outros (pra que n√£o tenhamos de olhar pra n√≥s mesmos), e que certa classe social resolveu, digamos... materializar de forma mais... contundente, em cima dos outros. E a forma de resolver esse problema n√£o √© prendendo gente, ou jogando ovos de volta, mas re-discutindo nosso papel no mundo!!! √Č esse o tipo de sociedade que queremos? Ser√° que devemos instaurar uma guerra civil de ovos ou vamos trazer enfim √† baila a discuss√£o √©tica e moral, que independe de religi√£o, mas que, na nossa limitada cabecinha coletiva, ainda precisa de uma droga de uma √Ęncora do tipo "Jesus, Buda ou Krishna fariam isso?". √Č esse o cabresto do qual vos falo. Comecei o texto falando do cabresto pol√≠tico-social do contrato. S√≥ que o contrato idealizado por Rousseau passa por todas essas quest√Ķes abordadas acima, como se l√™: "o que o homem perde pelo contrato social √© a sua liberdade natural, e o que adquire √© a liberdade civil. Distingue-se a primeira que n√£o reconhece limites outros al√©m da for√ßa dos indiv√≠duos, da segunda, que est√° protegida e limitada pela vontade geral". Se o Estado n√£o prov√™ esse contrato, se ele falha em rela√ß√£o aos seus objetivos, ent√£o, segundo Locke, "deve ser dissolvido para que outro se organize". O problema no Brasil √© que o sistema est√° viciado... ainda mais quando reelegemos pe√ßas reconhecidamente defeituosas...

E os que subsistem na educa√ß√£o que tiveram dos pais ou av√≥s se acham peixes fora d'√°gua, pensando "ser√° que estou errado e o mundo est√° certo, ou eu estou certo e o mundo est√° errado? Seja como for, tem alguma coisa errada nisto tudo". E lutam contra for√ßas descomunais. √Č o que as profecias Maias j√° previam: a era dos espelhos. E, assim como o Zohar diz que "Ai daquele que estiver na era do Messias, e feliz daquele que estiver na era do Messias", o Pastor conclui seu recado citando Romanos 5:20: "Onde abundou o pecado, superabundou a Gra√ßa".

N√£o √© hora de des√Ęnimo. As melhores oportunidades s√£o criadas exatamente nas horas mais dif√≠ceis. √Äs vezes uma vida toda de prega√ß√£o para milhares de pessoas de um s√≥ credo √© destinada a 10 minutos de v√≠deo que vai ser assistido por 500.000 pessoas √†s quais ele nunca falaria. √Č a transforma√ß√£o de Shiva, que poucos entendem e associam a destrui√ß√£o pura e simples. Uma transforma√ß√£o que vem atrav√©s da dor, do impacto, mas para aqueles que conhecem a Matrix o que se v√™ √© um mecanismo em plena atividade, com alguns c√≥digos aparecendo aqui e ali para o bom observador.

Adoraria ver cidades criadas em torno de religi√Ķes, onde seus habitantes estivessem reunidos por uma afinidade. Uma cidade hindu√≠sta, outra isl√Ęmica, outra budista, outra s√≥ de fil√≥sofos (que n√£o √© uma religi√£o mas tem toda uma estrutura moral), todas convivendo dentro do mesmo pa√≠s, em harmonia uma com as outras. Mas n√£o se p√Ķe vinho novo em vaso velho... e como n√£o podemos reconstruir o mundo macro, que tal o micro? Muitas pessoas j√° v√™m fazendo isso, de forma invis√≠vel pra maioria. Aqui em Pernambuco mesmo, no cora√ß√£o do Recife, reside um n√ļcleo comunit√°rio que, √† primeira - e segunda - vista √© um favel√£o: O Coque. S√≥ o nome j√° causa arrepios nos recifenses, acostumados √†s not√≠cias sangrentas de jornais da capital mais violenta do Brasil (Yeah!). Uma minoria de marginais transformou todo um bairro em marginalizado, iniciando um ciclo vicioso que ajuda a produzir mais marginais. Ponto pra Prefeitura e Governo, que criou um v√°cuo social dentro daquele lugar (h√° policiamento na periferia, para que os bem-nascidos n√£o sejam mais assaltados no imenso viaduto que passa por cima do lugar). Mas espere! No meio de todo aquele am√°lgama de viol√™ncia e mis√©ria h√° um reduto de paz e ordem, onde trabalhadores volunt√°rios se re√ļnem pra ajudar as pessoas com educa√ß√£o, capacita√ß√£o, tratamento psicol√≥gico e... (tcharaaaaaaaam) RELIGIOSO. S√£o esp√≠ritas, budistas, fil√≥sofos, umbandistas, hindu√≠stas, cat√≥licos e ateus, que n√£o est√£o l√° para provar seus pontos de vista, mas para trabalhar em prol do semelhante. √Č o NEIMFA (N√ļcleo Educacional Irm√£os Menores de Francisco de Assis), uma ONG que funciona com apoio financeiro vindo do exterior (e que acabou servindo de base de apoio para a√ß√Ķes governamentais). Como eles n√£o t√™m problema com Deus, abrem o espa√ßo para deuses hindus, Buda e pro bom e velho Jeov√°.

O mundo pode n√£o estar l√° muito legal com as guerras e animosidades criadas em torno de Deus(es). Mas, quando vemos a animosidade continuar SEM Ele, e as (poucas) a√ß√Ķes em prol do semelhante vir de (e ir de encontro a) uma religiosidade inerente ao aspecto Divino do Ser Humano, percebemos a necessidade de ter (e SENTIR) Deus em nossa sociedade.

 
 
Acid é uma pessoa legal e escreve o Blog (Saindo da Matrix).
"Não sou tão careta quanto pareço. Nem tão culto.
N√£o acredite em nada do que eu escrever.
Acredite em você mesmo e no seu coração."
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