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A intensa luta pela sobrevivência  
A intensa luta pela sobrevivência

:: Bel Cesar ::

O Reino Animal: a presença do medo constante
na intensa luta pela sobrevivência


Segundo o budismo tibetano, existem seis reinos, tanto como esferas de renascimento, quanto como padrões de atitudes emocionais que condicionam nosso sofrimento. São visões kármicas, hábitos mentais que definem nosso ser e nossa visão de mundo. Todos nós já experimentamos repetidamente o nascimento em todos os seis reinos.

O reino dos deuses é marcado pela preguiça e pelo orgulho; o reino dos semideuses, pela inveja e pelo ciúme; o reino dos humanos, pelo desejo de posse; o reino dos animais é marcado pelo medo e pela ignorância; o reino dos fantasmas famintos pela avidez e, finalmente, o reino dos infernos pela raiva e impaciência.

Semana passada, estudamos o reino humano; hoje, vamos refletir sobre o reino animal. Ao estudar cada reino, podemos compreender como entramos e saímos das tramas de nossos conflitos internos.

Enquanto seres humanos, o reino animal é o único dos demais reinos que podemos observar de modo concreto em nosso dia-a-dia. Recentemente, ao ler o livro de Odir Cunha Os Bichos ensinam (Ed. Códex), fiquei tocada pela força de vontade dos animais: como temos tanto que aprender com eles! Neste livro, Odir Cunha nos inspira a viver melhor a partir do exemplo de vida dos animais. Por exemplo, ele conta que mesmo o poderoso tigre indiano só é bem-sucedido em um a cada vinte ataques: ele sabe superar obstáculos com perseverança. Sem contar o exemplo de solidariedade que os pingüins nos dão: eles se amontoam em colônias gigantescas ao ar livre. Agrupados resistem a temperaturas de 50 graus negativos e ventos de 80 km/h. Porém, para que aqueles que estão nas bordas não congelem, realizam movimentos circulares que permitem a todos usufruir também o calor do centro. Não fosse assim, fileira após fileira seria dizimada pelo frio.
A grande maioria de nós já sentiu um profundo amor e admiração pelos animais. Sem deixar de falar da lealdade e amizade profunda daqueles que têm um animal de estimação. Como parece ter tido Leonardo da Vinci certa vez: Um dia, quando o homem conhecer o íntimo de um animal, não o matará...
Nós ocidentais, temos uma visão inocente em relação ao mundo animal: pensamos que eles são livres e, portanto, sofrem menos que nós, humanos. Há quem diga, por exemplo, que gostaria de ser livre como um pássaro para voar num céu aberto, sem obstáculos. No entanto, enquanto voa, a mente do pássaro sofre de um medo perene, pois sabe que está diante da constante ameaça do ataque de outros pássaros.

Francesca Fremantle acrescenta, em seu livro Vazio Luminoso: Do ponto de vista cristão e mesmo do ponto de vista secular ocidental, os animais são vistos como inocentes e não responsáveis por suas ações, porque não distinguem o bem e o mal. Pela mesma razão, são considerados inferiores aos seres humanos e, em termos cristãos, sem alma. A visão budista é inteiramente diferente. Todos os seres conscientes em todos os seis reinos possuem a natureza de Buda. Mas pelo fato de sua natureza essencial estar obscurecida pela ignorância, estão igualmente sujeitos à lei do karma, e a lei do karma é simplesmente uma questão de causa e efeito. Já que tudo está mudando continuamente e nenhuma condição é permanente, eles conseqüentemente renascerão em estados mais favoráveis.

A visão kármica do reino animal é marcada pelo medo constante diante da luta pela sobrevivência. Enquanto seres humanos, vivenciamos este sofrimento de confusão e paranóia todas as vezes em que nosso senso de segurança é ameaçado. A imaginação torna-se ativa: a irrealidade ganha força e presença. Diante do imprevisto ameaçador, tornamo-nos hipersensíveis ao mundo e, como um mecanismo instintivo de defesa, nos contraímos física e emocionalmente. O medo nos rouba a alma e nos deixa ignorantes.

Neste sentido, quanto maiores forem nossas experiências de impotência diante do medo, menor será nossa capacidade de amar e receber amor, assim como de desejar, sentir prazer em criar e arriscarmo-nos diante do novo. Por isso, o medo nos torna animicamente insensíveis, desinteressados, sem graça. Aliás, o reino animal é caracterizado pela ausência de humor, pois eles podem vivenciar prazer e dor, mas o senso de humor e ironia não existe em suas vidas.

Os animais possuem os sentidos extremamente aguçados, com capacidade de percepção extra-sensorial, mas como são incapazes de observar o funcionamento de suas mentes, são vítimas de seu próprio medo.

Outro ponto particular do reino animal refere-se ao anseio por tomar posse de um território. Os animais demarcam sua área com urina e uma atitude agressiva diante de qualquer ameaça. Quando estamos presos aos padrões emocionais do reino animal, temos uma atitude semelhante de posse com relação a nosso ambiente imediato. Assim como esclarece Martin Lowenthal em seu livro Coração Compassivo (Ed. Pensamento): Quando possuímos um espaço, identificamos-nos com ele. Gostaríamos que esse espaço fosse tão sólido quanto a terra e esperamos que nos dê uma sensação de permanência neste mundo mutável. A certa altura achamos que, se pudéssemos conservar as boas coisas e descartar as más, poderíamos superar as condições de nossa vida. [...] Uma vez que definimos o mundo em termos de bom e mau, tentando possuir coisas boas e evitar as más, tornamo-nos receosos dos outros, que poderiam cobiçar os nossos pertences ou contaminar o nosso espaço com algo de mau. Erguemos barreiras de privacidade em torno do nosso quarto, do nosso escritório, do nosso tempo, do recinto de nossas meditações. Esses limites, estabelecidos para a nossa proteção, transformam-se nas paredes de uma prisão, separando-nos dos benefícios da amizade, da descoberta, do mundo circunjacente. Desta forma, aos poucos nos tornamos cada vez mais desconfiados, solitários e paranóicos.

Apesar de vivermos numa cultura de medo, não estamos condenados a viver acuados como no reino animal. Para tanto, devemos nos perguntar honestamente: O que o medo tem feito comigo? Para todas as respostas, haverá sempre a mesma saída: por meio de nossa própria vontade, poderemos nos separar do medo, pois em essência não somos medo. No entanto, para descolarmos o medo de nossa auto-imagem, precisamos inicialmente ser capazes de reconhecer o medo como uma ilusão, um mecanismo artificial que atua sobre nós, apesar de não nos pertencer. É como um vírus poderoso que impede o funcionamento de um bom computador. Em seguida, teremos que nos aproximar de nossas fraquezas com curiosidade e compaixão por nós mesmos, com a intenção clara de perceber como o medo tem moldado nosso relacionamento com o mundo. Desta forma, iremos dissolver as camadas do medo ao lidar diretamente com ele, isto é, sem negá-lo, rejeitá-lo ou julgá-lo como certo ou errado. Este é um processo lento e gradual, no qual nos oferecemos uma nova oportunidade cada vez que reavaliarmos nossa auto-imagem.

O perseverante caminho do autoconhecimento nos ensina que os limites que impomos à nossa auto-imagem são mutáveis, portanto, possíveis de serem transformados. Esta compreensão é a chave para sairmos dos padrões emocionais do reino animal.

Quando não temos a capacidade de entender como o medo atua sobre nós, passamos a nos identificar com ele. Pensamos SER o medo. Mas, felizmente, em essência não somos medrosos. Robert Sardello em seu livro Liberte sua alma do medo comenta: “Por que não sentimos medo muito mais poderosa e continuamente do que fazemos? Será que ficamos tão acostumados que o medo realmente não nos incomoda a não ser que venha em uma intensidade que não possamos ignorar? Estamos realmente insensíveis? A insensibilidade em relação aos medos não provém da repressão e sim de algo muito mais sério – uma situação na qual nos transformamos em conspiradores junto com o medo sem sequer sabermos que isso aconteceu. Quando isso ocorre, a própria essência de uma pessoa é substituída por algo que parece e age exatamente como uma pessoa, mas não é”. Desta forma, atuamos a partir de um falso senso de identidade, no qual nos imaginamos sempre sem força e incapazes.

Martin Lowenthal nos lembra que quando começamos a perceber que podemos nos responsabilizar por nós mesmos, podemos usufruir de nosso território como um local de acolhida, não como um esconderijo. Neste sentido, ele escreve em seu livro Coração Compassivo: “Embora as coisas mudem e a segurança seja ilusória, a radiância básica não pode ser destruída. Ela simplesmente se reveste de formas diferentes em contato com outras formas radiantes. O relacionamento, enquanto processo vital, dilata o nosso espaço e nos permite acolher os outros. E à medida que esse espaço se torna mais amplo e flexível, abandonamos um pouco do conhecido para explorar e acolher um pouco do desconhecido. Em certo sentido, nós morremos para o velho espaço – os velhos limites e definições – a fim de nos abrirmos para um espaço maior. Essa disponibilidade é o ingrediente fundamental do aprendizado. Quando vemos a vida como uma oportunidade para aprender, lançamos os alicerces do crescimento. Essa é a característica essencial da vida, o nosso objetivo como seres humanos.”

Se ficarmos presos ao complexo emocional da esfera animal, iremos viver, sem hesitar, de forma limitada, como semi-adormecidos. Pois com o propósito de apenas sobrevivermos para satisfazer nossas necessidades básicas de fome, sexo, sono e autopreservação, estaremos consumindo a energia vital sem evoluir, ou seja, sem dar um sentido maior para esta vida. Uma vida sem sentido é reduzida às satisfações imediatas. Ela se torna cada vez mais vazia, por ser carente de inspiração e amor. Nosso desafio é aceitar que, apesar do medo estar sempre presente no mundo, podemos viver nele de forma saudável e criativa.


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Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções, Mania de sofrer e recentemente O sutil desequilíbrio do estresse, todos pela editora Gaia.
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