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Afinal, o que √© a inveja?  

Afinal, o que é a inveja?


:: Bel Cesar ::

A inveja é um sentimento intrigante. Apesar de todos nós o experimentarmos, ninguém gosta de reconhecer quando o está sentindo. Afinal, é um sentimento controverso: indica que algo positivo desperta algo negativo.

Vamos imaginar uma conversa entre pessoas que est√£o ‚Äújogando papo fora‚ÄĚ. Do nada, algu√©m come√ßar a falar das coisas boas que est√£o lhe acontecendo. Quantos rostos e mentes diferentes surgem naquele momento! Poucos expressam interesse real e se regozijam com sinceridade. A maioria ir√° sentir inveja, mesmo que n√£o se d√™ conta...

Alguns expressam sua inveja com brincadeiras de ‚Äúmau gosto‚ÄĚ. Outros, calados, costumam pensar: ‚ÄúComo ele √© exibido e gosta de contar vantagem!‚ÄĚ. J√° aqueles que n√£o conseguem conter o ardor da inveja a queimar o seu interior, passam a critic√°-lo, com a inten√ß√£o de depreciar abertamente a sua boa sorte. H√° ainda aqueles que passam a dar conselhos para ajudar aquela pessoa de sucesso a garantir o seu triunfo.

O clima pesa, pois não há mais empatia entre as pessoas. Provavelmente, muda-se de assunto. Pois a essa altura da conversa todos estão sofrendo: quem contou sente-se só e arrependido. Quem escutou, agora sente-se incomodado, inquieto e talvez nem saiba porquê. A inveja é destrutiva, tanto para quem a sente quanto para quem a recebe.

Quem já não vivenciou um mal-entendido quando alguém resolveu dar boas notícias!

O senso comum concorda que √© melhor se precaver: ‚ÄúInveja traz mau-olhado. Quando estamos vivendo uma situa√ß√£o muito boa √© melhor calar‚ÄĚ.

Olho-gordo √© um nome popular para a inveja. Pois quando o invejado toma para si as proje√ß√Ķes negativas do invejoso, acaba por concretiz√°-las. O tema que evoca a inveja √© sempre alguma coisa que poderia revelar o que est√° faltando na personalidade daquele que a sente. √Č como se o invejoso falasse em voz alta algo que o invejado n√£o gostaria que jamais viesse √† tona. Neste sentido, para n√£o se deixar contaminar pelo veneno do invejoso, o invejado deve observar com honestidade sua rea√ß√£o frente ao ataque do invejoso. Se ele estiver livre das quest√Ķes expostas pelo invejoso, sua clareza de inten√ß√£o ir√° proteg√™-lo do poss√≠vel ataque do ‚Äúolho-gordo‚ÄĚ.

Quando somos criticados por avalia√ß√Ķes contaminadas pela inveja, podemos nos sentir injusti√ßados e vulner√°veis frente ao ataque externo. Neste momento, √© bom lembrar que √© praticamente imposs√≠vel ser compreendido por todos, assim como √© invi√°vel agradar a gregos e troianos. O importante √© mantermos o foco em nossas metas para n√£o nos contaminarmos pela inveja alheia, pois ela sempre estar√° presente, de uma forma ou de outra.

A inveja surge do sentimento de que somos incapazes de viver nossos próprios sonhos, de alcançar nossas metas e realizarmo-nos. Por isso, o exemplo daqueles que realizaram algo nos faz lembrar aquilo que não fomos capazes de fazer. No entanto, muitas vezes a sensação de incapacidade, a matriz da inveja, deve-se à escolha inadequada de metas, como desejar algo que não está ao nosso alcance. Em geral, costumamos não valorizar as coisas que já realizamos e assim cultivamos a sensação de desvalia sem nos darmos conta de nosso próprio valor. Neste sentido, a inveja consome o invejoso, porque o faz dar valor apenas ao que está além de seu alcance.

A inveja é um dos sentimentos mais difíceis de serem aceitos pelo ser humano, pois na maioria das vezes é inconsciente. Isto ocorre porque ela se forma muito cedo em nossa vida. A inveja surge nos primeiros meses de vida na relação com quem nos alimenta! Quando queremos mais alimento e não temos, não toleramos a frustração, ficamos com raiva de quem tem o alimento. Com inveja dele, queremos destruí-lo. Como podemos constatar, a inveja é um sentimento primitivo, pouco elaborado. Ela está baseada no sentimento de inferioridade, adquirido pela comparação que se faz com outra pessoa em algum aspecto específico.

Assim como escreve Elisa Cintra em Melanie Klein Estilo e Pensamento (Ed. Escuta): ‚Äú`Quem desdenha quer comprar¬ī, diz o ditado: a inveja √© quase sempre detect√°vel na vida cotidiana por esse trabalho de desvaloriza√ß√£o do outro, o que tamb√©m foi narrado pela f√°bula da raposa e das uvas. Impossibilitada de ter acesso √†s uvas, a raposa come√ßou a tecer considera√ß√Ķes sobre a falta de valor dos frutos, o fato de estarem verdes... A inveja dirigiu-se aos frutos, isto √©, √† criatividade da √°rvore, √†quilo que ela pode oferecer e criar. A id√©ia de `frutos¬īpermite que se lembre a inveja da obra do outro, de suas id√©ias, de seu trabalho e de sua capacidade de criar obras de arte ou cient√≠ficas. Entretanto, a inveja vai mais longe: al√©m de depreciar os frutos, ela tenta diminuir o prazer da pr√≥pria situa√ß√£o de gratifica√ß√£o, como na express√£o popular `n√£o dar o bra√ßo a torcer¬ī, admitir o poder do outro‚ÄĚ.

As impress√Ķes registradas no psiquismo durante os primeiros meses de vida s√£o de grande relev√Ęncia para o desenvolvimento posterior. Quando a crian√ßa n√£o consegue sentir que √© capaz de modificar seu ambiente (quem a alimenta), fica com um sentimento "eterno" de impot√™ncia: um sentimento profundo de inadequa√ß√£o e insufici√™ncia.

Esta é a base da inveja: supervalorizar os outros (que podem, segundo a fantasia do invejoso, fazer tudo) e esvaziar a si mesmo (que é inferior porque não pode fazer nada). Assim, nasce o desejo de esvaziar o outro para que tudo fique igual e ele não fique só. Segundo o psicanalista Mário Quilici, a inveja dá-se em quatro fases especificas:
1- Primeiramente, o indiv√≠duo olha um objeto, situa√ß√£o ou um tra√ßo de algu√©m que imediatamente admira. Compreende a import√Ęncia daquele tra√ßo para ele. Ou seja, v√™, admira e deseja.
2- No momento seguinte, faz uma comparação entre o que o outro tem e o que o indivíduo não tem. Ele toma consciência de uma falta sua porque já discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante.
3- Aí se dá o terceiro momento da inveja, que é a percepção - e ao mesmo tempo a vergonha - de uma falta nele do que foi admirado (e valorizado) no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou, é impossível de ser obtido por ele.
4- Logo estamos na quarta e √ļltima fase: A inveja √© disparada pela percep√ß√£o de uma falta no indiv√≠duo. Essa insufici√™ncia faz com que ataque e conseq√ľentemente espolie o objeto invejado para fazer desaparecer a diferen√ßa que foi percebida.

Numa luta secreta e constante, aquele que se sente insuficiente tenta esconder sua vergonha de ser incapaz. Assim, procurando evitar qualquer situação que o faça sentir mais humilhado, ele ataca antes de ser atacado. Isto é, ele compete sozinho. A competição é um hábito do invejoso, pois ele tem dificuldade de receber ajuda, fazer junto e cooperar.

O invejoso sente tem até mesmo dificuldade de receber presentes, pois ele teme qualquer situação que revele sua auto-imagem de carência e necessidade. Por isso, quando os recebe, procura sempre retribuí-los logo. Muitas vezes, a dificuldade de delegar tarefas também pode estar relacionada à inveja.

A inveja impossibilita o sentimento de gratidão. Isso ocorre porque o invejoso é incapaz de sentir que o outro lhe dá algo de bom grado e sim, o faz por necessidade de humilhar o invejoso.

O Novo Dicion√°rio Aur√©lio explica: ‚ÄúInveja √© o desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Um desejo violento de possuir o bem alheio‚ÄĚ. J√° o Dicion√°rio de Psicologia Dorsch esclarece: ‚ÄúA inveja pertence aos sentimentos intencionais. √Č uma insatisfa√ß√£o, o aborrecimento com a alegria do outro‚ÄĚ. Portanto, aquilo que √© invej√°vel √© encarado como algo de muito valor.

Se prestarmos atenção às qualidades do objeto, pessoa ou situação pela qual sentimos inveja, poderemos compreender melhor o que nos sentimos incapazes de conquistar. Neste sentido, a inveja é um espelho que revela uma parte de quem somos, onde estamos e para onde queremos ir.

Saber para onde queremos ir √© a condi√ß√£o b√°sica para sair da imobilidade. Por isso, se aprendermos a reconhecer os padr√Ķes emocionais que sustentam nossa inveja poderemos torn√°-la um m√©todo eficiente para diagnosticar nossas faltas. Desta forma, poderemos transformar a inveja numa for√ßa inspiradora de conscientiza√ß√£o, no lugar de um sentimento apenas desagrad√°vel. Reconhecer para onde queremos ir √© em um est√≠mulo para tomarmos uma atitude proativa diante de nossas dificuldades.

Talvez n√£o possamos modificar nada ao nosso redor. Mas se pararmos para aprender com nossos sentimentos negativos, poderemos mudar a nossa atitude mental e atrair o novo para nossa vida. Thomas Moore faz um coment√°rio interessante em seu livro Cuide de sua alma (Ed. Siciliano): ‚ÄúPor um lado, a inveja √© o desejo por alguma coisa, e por outro, √© uma resist√™ncia ante o que o cora√ß√£o realmente quer. Mas inveja, desejo e abnega√ß√£o trabalham juntos para criar um senso caracter√≠stico de frustra√ß√£o e de obsess√£o. Apesar de a inveja ter um ar masoquista - a pessoa invejosa acha que √© uma v√≠tima de m√° sorte -, ela tamb√©m envolve forte vontade na forma de resist√™ncia ao destino e ao car√°ter. Quando invejosa, a pessoa torna cega a sua pr√≥pria natureza. [...] O verdadeiro problema da inveja n√£o √© a capacidade do indiv√≠duo viver bem, √© a sua capacidade de n√£o viver bem‚ÄĚ.


 
 
Bel Cesar √© psic√≥loga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traum√°tico com os m√©todos de S.E.¬ģ - Somatic Experiencing (Experi√™ncia Som√°tica) e de EMDR (Dessensibiliza√ß√£o e Reprocessamento atrav√©s de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer n√£o se improvisa, O livro das Emo√ß√Ķes, Mania de sofrer e recentemente O sutil desequil√≠brio do estresse, todos pela editora Gaia.
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