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Luria

"O que eu gostaria de fazer agora é descrever-lhes um dos desenvolvimentos mais fundamentais que ocorreram desde a morte de Freud no ramo da neurociência, do qual a psicanálise derivou, pois acredito que tal desenvolvimento nos oferece um método que possibilita reunir a psicanálise e a neurociência de uma forma compatível com os pressupostos básicos de Freud.

Durante o início dos anos 1920, um jovem psicólogo russo escreveu a Freud com a finalidade de solicitar o reconhecimento formal de uma nova sociedade psicanalítica que ele havia formado na cidade de Kazan. Esse homem era Aleksandr Romanovich Luria. Freud concedeu o reconhecimento, ao qual se seguiu uma breve correspondência entre ambos. Após alguns anos, Luria mudou-se para Moscou e ingressou na Sociedade de Psicanálise Russa. Durante um período de cerca de dez anos, Luria conduziu uma ampla variedade de pesquisas psicanalíticas, publicou um grande número de artigos, monografias e relatos breves, e conduziu um trabalho clínico num hospital psiquiátrico local, que incluiu (assim dizem os rumores) a análise da neta de Dostoievsky. Luria foi levado à psicanálise, assim escreveu ele, porque esse era o único ramo da psicologia que tinha raízes na ciência natural e, ao mesmo tempo, estudava a experiência viva de seres humanos reais.

No entanto, os ventos da opinião política logo sopraram contra a psicanálise na União Soviética e, no início dos anos 1930, temendo por seu futuro acadêmico - para não dizer pela própria vida - Luria se desligou da Sociedade de Psicanálise Russa, cessou abruptamente todas as atividades psicanalíticas e fez um discurso penitente no qual admitiu seus erros ideológicos, ou seja, de acordo com a linha do Partido daquela época, aquela psicanálise "biologizava" o comportamento humano e ignorava suas origens sociais. Era uma observação surpreendentemente ingênua, vinda de alguém que tinha uma compreensão tão complexa dos ensinamentos de Freud, mas não era isso que estava em questão.

Curiosamente, há evidências demonstrando que Luria nunca abriu mão de seu interesse privado em psicanálise, não importa quais tenham sido seus pronunciamentos públicos. Considere-se, por exemplo, uma carta escrita para Oliver Sacks em meados de 1970, em que Luria descrevia os tiques verbais de um paciente com Síndrome de Gilles de la Tourette como sendo uma introjeção, no superego, da voz punitiva do pai (comunicação pessoal de Oliver Sacks ao autor, em 17 de março de 1987).

É também bastante notável, tendo em vista a acusação de que a psicanálise biologizava o comportamento humano, observar o que Luria fez a seguir (após se desligar da Sociedade de Psicanálise). Ele matriculou-se na faculdade de medicina, especializou-se em neurologia e, então, imediatamente, pôs-se a estudar os sintomas mentais de seus pacientes neurológicos. E sua primeira produção em pesquisa nessa área, sua tese de doutorado era, na realidade, exatamente sobre o mesmo assunto que estava preocupando Freud quando ele abandonou essa área 40 anos antes, ou seja, estudou o assunto de afasia.

Quando Luria finalmente publicou os resultados de suas investigações em 1947, numa monografia na qual escrupulosamente evitou o nome de Freud, propôs uma teoria sobre a representação cerebral da linguagem que era notavelmente parecida com a que Freud havia formulado em 1891 (Luria, 1970)."(pág.28/29)

"No entanto, Luria foi um pouco mais longe do que Freud; e isso representou o avanço essencial de sua contribuição à neurologia comportamental, ou neuropsicologia, como ele preferia chamá-la. Luria descreveu sua abordagem como "neurodinâmica". (pág.30)

"O que o método de Luria revela sobre a organização neurobiológica do sonhar, portanto, é admiravelmente compatível com a teoria clássica de Freud. Além disso, em função do papel central dos sonhos nos modelos de Freud sobre a mente, esse método nos oferece um primeiro apoio na representação fisiológica e anatômica de alguns conceitos psicanalíticos cruciais que incluem aspectos da libido, censura, simbolização, regressão topográfica, e assim por diante." (pág. 38)

Do livro: "O que é a Neuro-Psicanálise" - Karen Kaplan-Solms e Mark Solms - Ed. Terceira Margem - São Paulo, 2004.

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