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Tropa de Elite e o Papel do Poder Público - Uma reflexão.

Autor Daniele Alvim - danielealvim@hotmail.com


Tropa de Elite é um filmaço: ótimos atores, ótima direção, ótima edição, ótima montagem. Prende a atenção do início ao fim, apesar de violento. E apesar de violento é o filme que, segundo a Revista Veja, será o mais visto no Brasil até hoje - não sei se estão levando em consideração os filmes da Xuxa e dos Trapalhões... (!)

Mas o que será que tem esse roteiro de tão especial que chama tanto a atenção do público, uma vez que a crimininalidade e suas artimanhas é folhetim que o brasileiro está cansado de assistir no dia-a-dia da vida real? Será que ainda não se cansou? Pelo jeito a resposta é não. Talvez ele esteja buscando respostas para o seu drama pessoal e coletivo.

Eu mesma, num primeiro momento, pensei que não ia assistir a mais um enredo em que a bandidagem, a corrupção e a violência eram o tema central, mas não resisti e acabei indo... E, o pior, gostei... E quem vive e mora no Rio de Janeiro (eu fui nascida e criada lá até os 30 anos de idade) sabe que cada segundo do que foi visto em Tropa de Elite relata nada mais do que a verdade. Infelizmente.

Então, me pus a pensar sobre qual seria a mensagem principal do filme. Não a óbvia, que todos nós conhecemos e que a Veja já apontou magistralmente. Mas o que haverá de mais profundo nisso tudo? O que podemos deduzir do que nos foi visceralmente e sem hipocrisias mostrado em relação à sociedade em que vivemos e cujo sentimento de unidade denominamos de Nação? E em relação a esse país, nosso lar, nossa Pátria?

Cheguei à conclusão de que as teorias sobre a violência são muito superficiais e nós as engolimos sem pensar. Está tudo fora do lugar e querem que acreditemos que a culpa é nossa. Pode ser, em parte, mas muito e muito mais do Poder Público que no Brasil é um verdadeiro circo de piadas sem graça. É só sairmos do Brasil para entendermos melhor o que é esse sentimento de pátria e nação. O Velho Mundo expressa muito bem esse sentimento. Sim, eles têm orgulho de sua história, de seu povo, de sua pátria e demonstram claramente que as Instituições Públicas são, antes de tudo, respeitáveis. Basta andar nas ruas e é isso o que se percebe. A respeitabilidade do Poder Público. Claro, porque eles também se fazem respeitar.

Vamos parar com esse papo de que a sociedade tem que fazer por onde para reduzir a criminalidade. A sociedade tem o seu papel, sim, mas peraí! Cada qual com seu cada qual. Não devemos ficar de braços cruzados esperando que tudo nos caia dos céus, mas combater a criminalidade é algo que o Poder Público tem que fazer, não o cidadão! Ou elegemos esses caras, nossos representantes, pra quê?

Lembram da Máfia Italiana que foi imortalizada nos Poderosos Chefões? Bem, o Poder Público da Itália conseguiu acabar com grande parte de seu poder. Lembram do Tolerância Zero do Giuliani, lá em Nova York? Deu certo, né? Pois é, mais uma vez o Poder Público. Por que será que a polícia inglesa é tão temida e respeitada, apesar de às vezes cometer erros, como o assassinato do brasileiro que foi confundido com um terrorista? Respeitabilidade do Poder Público. Esses são apenas os exemplos mais conhecidos. E temos ainda muitos outros.

Apontar o usuário da droga como principal financiador do tráfico e da violência é querer tirar o corpo fora. O usuário tem a sua responsabilidade dentro deste cenário, e isto é inegável, mas é ingênuo querer acreditar que acabando o usuário o traficante vai ser eliminado, porque vai ficar sem emprego. Bull shit! O traficante é apenas a ponta do iceberg! Por detrás dele existem os verdadeiros chefões, esses aí com mil e uma sucursais do crime. Vamos todos esperar que o usuário se conscientize e, puft, acaba o traficante sem o menor esforço do Poder Público. Pura ilusão! Ou então, vamos discriminalizar as drogas! Adiantaria? Continuaríamos alimentando o tráfico. Ou não? Que beleza para o crime organizado, hein? Traficante e usuário dando as mãos numa passeata pela paz... Sim, porque a violência e a corrupção deslavada continuaria no Brasil, e de quem seria a culpa? Assume a sua responsabilidade, Poder Público!

Qual o problema, então? A total falta de comprometimento (e interesse) do Poder Público em acabar com a criminalidade, o que expressa uma total falta de patriotismo, falta de estima pelo país e pela nação. Quem são esses caras que estão no Poder e que não dão a mínima para a sociedade? Falta vontade meus amigos, falta consciência, mas sobretudo falta o sentimento de nação, de querer transformar o Brasil em um país melhor e digno de sua grandeza e riqueza para os seus habitantes (e não apenas para uns poucos elitizados habitantes). Cada um só quer saber de si e o sujeito hoje que quer ser político não pensa em mudar o país nada... pensa em ganhar dinheiro e poder. A história recente do Brasil nos mostra isso. E sempre nos mostrou.

É muito simplória a opinião de que o policial acaba tendo que virar corrupto porque o salário é muito baixo e ele tem família para sustentar e ainda por cima correr todo o risco que corre... Dá um tempo! O Poder Púbico no Brasil está comprometido de cima a baixo. A falta de valores permeia toda a nossa sociedade e, em relação a isso, nossos governantes são o seu arauto.

O Poder Público precisa ser o reflexo positivo da sociedade. Como não? O Poder Público está acima da sociedade, assim como o pai está acima do filho. Como achar que o filho tem que dar o exemplo para o pai?

O Problema todo dessa festa do "poder paralelo" no Brasil decorre da total inépcia e descaso dos governantes. Se fosse possível a sociedade combater a criminalidade teríamos que voltar à época do olho por olho, dente por dente, do Código de Hamurabi que há muito tempo foi banido do Estado de Direito para que as Instituições Públicas pudessem ocupar o seu lugar de protetoras desse mesmo Estado de Direito. Não é fantástico? É aquela mesma história do pai ter a hierarquia sobre o filho.

Estive pensando sobre isso e, claro, a conclusão é bem mais complexa, mas o Poder Público tem que voltar a tomar o seu lugar e a exercer o seu papel. Caso contrário, continuaremos assitindo a outras Tropas de Elite e nos conformando com teorias pra boi dormir mas, secretamente, torcendo para que o policial herói honesto (ele existe gente!) estraçalhe o bandido, ainda que para isso tenha que se utilizar da velha Lei de Hamurabi.

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Texto revisado por Cris


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Autor: Daniele Alvim   
Daniele Alvim é Escritora, Terapeuta e Professora de Aura-Soma
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Publicado em 19/10/2007
 

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