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Jesus era um ser apolítico?  
   

Jesus era um ser apolítico?

Autor Flávio Bastos - flavio01bastos@gmail.com


"Jesus olhou a multidão e teve pena, porque estava prostrada como ovelhas sem pastor". (São Mateus)

No Brasil de hoje, onde as religiões associam-se à política partidária e os partidos políticos tornam-se degraus de ascensão ao poder, cabe aqui uma reflexão sobre o posicionamento de Jesus Cristo, que viveu numa sociedade piramidal conforme nos informa Clodovis Boff, em seu livro "Fé e compromisso político". É o que veremos a seguir.

Estruturas de Classe

A classe alta, o ápice da pirâmide social, era formado pelo Sumo Sacerdote, o rei Herodes, o governador Pôncio Pilatos e a corte. Esse era o primeiro polo da classe rica. O segundo polo era constituído pelos proprietários de terras, os latifundiários. Por fim, tinha os grandes comerciantes do mercado importador-exportador, do mercado atacadista, sobretudo de Jerusalém.
Depois da classe rica vinham os "remediados". Eram os artesãos qualificados, os pequenos agricultores, pequenos comerciantes e profissionais liberais, que eram os escribas e fariseus. Nessa posição, havia a classe do baixo clero, os sacerdotes do templo e os levitas. Como os sacerdotes daquele tempo casavam, constituíam famílias, existia cerca de oitenta mil famílias. Por aí, compreende-se como deveriam ser altos os impostos, porque estas pessoas eram sustentadas pelo fisco.
A base da pirâmide, a classe baixa, era formada pelo povo, ou seja, a "multidão", que era a massa de gente sem maior coesão interna. No meio do povo, existia toda a sorte de trabalhadores. Eram artesãos do interior, diaristas, escravos, criados e também existia toda a sorte de marginalizados: doentes, mendigos, órfãos, viúvas, estropiados, loucos, possessos (chamavam de possessos as pessoas que, por causa de suas condições sociais, ficavam loucas), e os leprosos (que eram os últimos dos últimos). Isso mostra o nível a que estava reduzido o povo, o grau de deterioração das condições de vida.

Partidos políticos
Existiam três partidos políticos principais, os Saduceus: nele se concentravam a classe rica, dominante. Era um partido pró-romano e se opunha à mudança porque se beneficiava da situação tal como era, e mantinha a ideologia da conservação. Era extremamente conservador e reacionário, concentrava-se em torno do templo e detinha o poder político.

Fariseus: composto por leigos da classe média ascendente. O partido era formado pelos intelectuais do templo, advogados, copistas, teólogos. Frente aos romanos. ele era uma espécie de oposição confiável. Tinham a hegemonia no sentido de que detinham a direção moral, intelectual; o povo confiava neles. Então, na verdade, detinham o poder na mão.
Zelotes: era um partido radical, que rompe definitivamente com os romanos e adota a prática da guerrilha, da violência armada. Nascido na Galileia, é integrado sobretudo por camponeses escravizados por dívidas. Visa, realmente, destruir a estrutura política romana e também o poder judaico "capacho" dos saduceus. Em certos momentos fazem alianças com os fariseus.

O Posicionamento de Jesus
Existiam dois dados nos Evangelhos em tor­no dos quais não há qualquer contestação: Jesus vivia na companhia dos pobres, dos oprimidos. Sua base social eram os oprimidos e marginalizados daquela sociedade. No capitulo 8, de São Mateus, vemos que os seus primeiros milagres são curas de pessoas muito marginalizadas; Jesus aqui reata com a boa tradição profética que é a defesa dos pequenos.

A tradição farisaica dizia “Afasta-te dos pobres, dos pecadores, porque são malditos”. A condição de vida dos pobres lhes impediam de praticar a Lei. Portanto, concluía-se que eram pecadores. Cristo diz ao contrário. Ele se aproxima, defende os pequenos. Ele, do partido dos pobres, dos oprimidos, tem uma atitude critica frente aos poderosos.

O conflito entre Jesus e os di­rigentes do povo atravessa os Evangelhos de ponta a ponta. No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos (embora apareça em segunda posição no livro do Novo Testamento), percebe-se um progresso na oposição entre Cristo e os dirigentes. No capítulo 2, quando cura um paralítico, os Fariseus cochicham entre si e dizem. “Esse homem blasfema, porque ele perdoa pecados”. No capítulo 2, Jesus está jantando com os publicanos. Os Fariseus conversam com os discípulos e dizem: ”Como é que o mestre de vocês almoça com os publicanos?”. Logo em seguida, quando os discípulos infringem o sábado, esmagando, descascando as espigas de trigo e comendo, então aí aparece o ataque direto a Cristo: “Como é que seus discípulos infringem o dia de sábado?” Mais adiante, atacam-no porque ele não lava as mãos antes de comer, desrespeitando a tradição. Era Jerusalém, o conflito é aberto. Jesus ataca diretamente os Escribas, Fariseus, os Sumo Sacerdotes e os Saduceus. Expulsa os vendilhões do Templo, e declara que o Templo vai acabar. O Templo significa o sistema da época. Amaldiçoa também a figueira, símbolo do sistema Judaico, A maldição da figueira significa maldição daquela sociedade. Foi logo entendido esse gesto profético de Jesus. É claro, uma semana após, ele é levado ao tribunal e condenado à morte na cruz.

Teve um grande teólogo judeu que escreveu um livro chamado "Jesus e os judeus". Ele mostra de maneira clara que quem matou Jesus não foi o povo judeu. Foram os dirigentes, os chefes do povo de Israel. O povo judeu, ao contrário, estava ao lado de Cristo. Vemos, inclusive, que os chefes somente conseguiram pegar Jesus escondidos do povo, traindo, comprando um discípulo. Jesus teve uma posição não politicamente direta e, sim, profética. Ele não tinha programa político definido, como o tinham os Zelotes, os Saduceus e os Fariseus. Ele também não fundou uma corrente política que visasse diretamente o poder. É verdade que existiram grandes histórias que consideraram Jesus um Zelote. E isso porque o seu discurso critico, violento, era parecido com o dos Zelotes.

Cristo também ex­pulsou os vendilhões do Templo, coisa que os Zelotes queriam e sobretudo porque ele morreu como um revolucionário, como um Zelote, como um criminoso político. Está inclusive escrito em cima de sua cruz: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Quer dizer, um chefe Zelote, um rei Zelote, assim é condenado na Cruz. Por to­dos esses motivos, ele teria sido considerado um Zelote. Mas existem outros dados que demonstram a desaprovação de Cristo em relação à prática dos Zelotes. Temos as palavras de perdão, de não violência. Jesus anda em companhia dos fiscais, se relaciona com os romanos e resiste à tentação do poder, o que não ocorria aos Zelotes. E ele guarda o segredo messiânico. Ele não queria revelar sua identidade messiânica para não provocar atitudes de sublevação no meio do povo, pois achava que isto iria ser um suicídio. Parte do ideário, da concepção, da mentalidade do programa Zelote era partilhado por Jesus. Parte era combatida.

Jesus era um ser apolítico? Alienado?
Por outro lado, Jesus não era um ser alienado, indiferente. O poder em questão era o de dominação, e Jesus nunca foi contra o poder como tal, enquanto poder de serviço. Ele foi contra o poder de dominação. E se guardava o poder messiânico, era porque o povo fazia uma ideia mística do Messias. Uma ideia mágica de um Messias milagreiro, demagógico, paternalista, portanto uma ideia não libertadora, não autêntica.

Cristo teve uma atuação política verdadeira, mas em nível profético. Foi um revolucionário profético. A sua grande ideia é a do Reino de Deus, que é um projeto radical total de transformação da sociedade. Quando prega o Reino de Deus, prega uma revolução integral, uma revolução absoluta. No fundo, a raiz da proposta de Cristo é, na verdade, profética. Mas ele tinha implicações e efeitos claramente político. Essa proposta leva-o a atacar o Templo, o cérebro central da exploração do sistema. Porque era profética, a sua proposta tinha uma implicação política. E os efeitos disso também são políticos.

Vemos que Cristo é perseguido continuamente durante toda sua vida pública. Ele é julgado por dois tribunais: pelo religioso onde foi declarado blasfemo; pelo romano, onde foi condenado exatamente como Messias, como revolucionário. E basta olharmos o crucifixo para nos darmos conta de que esse símbolo é um símbolo originariamente político.

Comentário
Para Paulo Freire, uma pessoa politizada é a que passou da percepção da vida como processo biológico para a percepção da vida como processo biográfico, histórico e coletivo. Portanto, a obra do "homem" Jesus Cristo, traz em sua essência o aspecto político da percepção social de sua época, à medida que encontra-se inserido em sua mensagem, a capacidade humana de atuar, de operar e de transformar a realidade de acordo com as finalidades propostas pelo homem de bem, que é o compromisso com a verdade e com uma sociedade mais justa e igualitária.

No entanto, o que distingue Jesus Cristo da política e das religiões mundanas, é o seu amor incondicional, registrado pelo apóstolo Paulo em uma de suas pregações, e que sintetiza a mensagem de Jesus e, ao mesmo tempo, um belo exercício de reflexão para todos nós: Se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo anel de ouro, ricamente vestida, e a outra pobre, com roupas sujas, e derdes atenção ao que traja ricamente e disserdes: "Senta-te aqui neste lugar confortável", enquanto dizeis ao pobre: "Tu, fica em pé aí", ou então, "Senta-te aí abaixo do estrado dos meus pés", não estais fazendo distinções em vosso coração? Não vos tornaste juízes com raciocínios criminosos?"

Texto revisado


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Autor: Flávio Bastos   
Flavio Bastos é criador intuitivo da Psicoterapia Interdimensional (PI) e psicanalista clínico. Outros cursos: Terapia Regressiva Evolutiva, Psicoterapia Reencarnacionista, Terapia Floral, Psicoterapia Holística, Parapsicologia, Capacitação em Dependência Química, Hipnose e Auto-hipnose e Dimensão Espiritual na Psicologia e Psicoterapia.
E-mail: flavio01bastos@gmail.com
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Publicado em 01/11/2016
 

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