A bagagem que carregamos  
   

A bagagem que carregamos

Autor Marco Moura - marcomoura@dao.com.br


Cada um de nós tem suas preferências, o que nos confere a individualidade. Nossos contextos de vida são diferentes, bem como o nosso histórico e o modo como nos relacionamos com tudo isso. Segundo o budismo, nós carregamos sementes cármicas relacionadas aos hábitos. A força do hábito se instala em nossas mentes e se torna o nosso padrão automático de responder às situações cotidianas. É muito interessante como nós criamos a nossa identidade em cima desses padrões. Nós acreditamos que eles são fixos e usamos frases fatalistas do tipo "eu sou assim", "isto eu não consigo", "eu não gosto daquilo". São afirmações fixas que confirmam a crença de que a nossa realidade está pronta e que não temos o poder de mudá-la.

Estamos presos na ideia de continuidade. Da mesma forma que uma sequência de imagens projetadas em uma tela dá a impressão do movimento contínuo, o momento a momento das nossas vidas também nos causa tal impressão - o que é uma ilusão. Podemos estar em um caminho e, de uma hora para outra, seguirmos outra direção. Pode nos faltar coragem e determinação, mas temos essa possibilidade. Na verdade, nossas possibilidades são ilimitadas, mas insistimos em seguir o caminho da mesmice devido à nossa crença na linearidade. Aquilo que chamamos de eu é uma entidade linear.

Na linha do tempo da vida, nós vamos carregando de momento a momento os nossos padrões comportamentais, as nossas preferências, o nosso histórico, toda a bagagem de crenças e conceitos. Quanto peso, não? Tudo para sustentarmos o nosso eu que acreditamos ser o nosso veículo para encontrarmos felicidade e realização. Linearmente, faz sentido: os meus gostos estão no eu e, sem o eu, não posso alcançar aquilo que quero. Mas será que esse é o verdadeiro eu ou somente um acúmulo de desejos e crenças? Enquanto esse eu se satisfaz ao alcançar o que deseja, ele vai se tornando uma entidade cada vez mais consolidada e também mais dependente, mais apegada e mais sofredora.

Não precisamos desse acúmulo. Podemos dar um passo adiante sem essa bagagem toda, um passo fora da linearidade, um passo totalmente livre. Você pode abrir mão da sua bagagem por um momento? Que tal pelo tempo de uma respiração? Por um minuto? Por três, cinco, dez ou vinte minutos? Que tal vivermos assim e só carregarmos a nossa bagagem quando for realmente necessária? Esse é o treinamento da meditação.

Um bom meditador não é aquele que se distancia do mundo e que vive em um mundo paralelo. Ao contrário, ele está mais presente, pois vive momento a momento. Ele pode caminhar com passos livres enquanto as outras pessoas dão passos pesados e arrastados devido à carga que carregam. Carregar um eu é desgastante. Ter a possibilidade de dar um passo desvinculado do passo anterior é uma oportunidade para a transformação, para a realização da vida a cada momento. Comecemos com uma respiração consciente e, quanto nos sentirmos confortáveis, aumentemos para mais até o período completo da meditação. Chegará o tempo em que esses períodos sem bagagem criarão uma energia de presença tão forte que o eu poderá ser totalmente deixado de lado e poderemos, segundo a nossa decisão e não por hábito, carregá-lo ou não. Que tal dar o primeiro passo?

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Autor: Marco Moura   
Marco Moura desenvolve no Centro Cultural do Templo Tzong Kwan (Vila Mariana, São Paulo) atividades para o desenvolvimento integral de corpo e mente através de terapias orientais, meditação e artes marciais. Fisioterapeuta, faz atendimentos de Acupuntura; ministra aulas de Tai Chi Chuan, Kung Fu e Meditação.
E-mail: marcomoura@dao.com.br
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Publicado em 29/09/2014
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https://www.stum.com.br/tc40933

 

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