Meditação: uma utopia?  
   

Meditação: uma utopia?

Autor Marco Moura - marcomoura@dao.com.br


As pessoas buscam a meditação como uma forma de desenvolver o equilíbrio, a saúde, a paz interior, a serenidade, o autoconhecimento e a espiritualidade. Essas são palavras bastante pronunciadas, mas pouco vivenciadas, pois não fazem parte do sistema no qual estamos inseridos: um sistema discriminatório e dualista.

Nós vivemos na chamada sociedade. A sociedade é um sistema e todo sistema necessita de componentes que o façam funcionar segundo uma ordem. Esses componentes somos nós. Nós nascemos sustentados pela sociedade e ao mesmo tempo a sustentamos. Precisamos agir conforme as regras da sociedade para que recebamos o seu amparo; precisamos sustentar a sua maneira de existir, suas crenças e ideologias. Dessa forma, os nossos parâmetros de pensamentos e comportamentos adéquam-se a esse sistema. Quanto mais satisfizermos esse sistema, maiores benefícios teremos em troca, não é? Status, poder, fama, controle: tudo isso alimenta o sistema e se apóia na dualidade que compõe a sociedade. Toda qualidade que ela sustenta fomenta o seu aspecto oposto, portanto é natural que favorecendo o correto, o belo, o desejável e o respeitável, surjam o incorreto, o feio, o indesejável e o desrespeito. A polícia existe em função do bandido; o médico existe em função da doença.

A sociedade sustenta a dualidade e gera, naturalmente, efeitos colaterais como a intolerância, a crítica, o julgamento, o caos, a insanidade e a doença. Tudo isso é natural dentro da dualidade. Ela cria algo que você deve perseguir e, ao mesmo tempo, algo que deve repudiar. Enquanto a dualidade for alimentada, haverá sempre separatividade e, nesse contexto, um tenta dominar o outro, fazendo proliferar a violência. Somente a unidade é libertadora. A dualidade não admite aceitação incondicional, somente parcial.

E nós, como ficamos? A dualidade e a unidade também existem em nós, talvez na forma de um eu exterior (adquirido) e um eu interior (inato). O eu exterior sobrevive em função da sociedade, seus desejos se apoiam no que é pregado pela sociedade, sua forma de pensar é ensinada pela sociedade. Todo esse processo forma o ego, que é uma criação mental com bases na interação com a sociedade. Seu comportamento é compatível com o sistema e não com a verdade interior.

O eu interior é aquilo que temos como verdade mais profunda. Podemos viver em meio ao luxo e a tudo aquilo que é classificado como “bom e belo”, mas a nossa saúde física e mental pode não condizer com isso. Desordens como depressão, ansiedade, pânico são indicativos de que o nosso eu verdadeiro está reprimido e insatisfeito. Claro, se o nosso comportamento não tem raízes no nosso eu verdadeiro, ele não pode se satisfazer. O modo de agir da sociedade reprime a nossa essência, que se exprime através do veículo que é o nosso corpo e a nossa energia.

Então vem a questão: como vamos agir dentro da sociedade beneficiando o nosso eu interior? Afinal, a sociedade não quer pessoas livres, que tenham as suas próprias vontades e ideias. Ao mesmo tempo, necessitamos sobreviver em meio à sociedade, com dinheiro, relacionamentos, etc. Se não nos encaixarmos aos moldes e ao ritmo da sociedade, ficaremos sempre para trás, rejeitados e na pobreza. Devemos simular obediência? Ter estratégias para nos refugiarmos de tempos em tempos desse caos?

Grandes mestres do passado deixaram dicas importantes a esse respeito. Nada de fuga da realidade. Não vamos achar estratégias dentro do mecanismo do sistema, pois estaríamos sustentando-o e nos afastando cada vez mais da origem. Ao invés disso, vamos nos adaptar à realidade através não daquilo que foi inserido na mente, mas através daquilo que realmente somos. O ego é uma invenção, pois é uma peça dentro da diversidade. Em verdade, somos uma só energia, somos o próprio Universo. Precisamos abandonar a mente dualista e adotar a mente integrada, observando imparcialmente sem nos identificarmos com os pensamentos, sem sustentar julgamentos e conceitos, mas permanecendo livres e atentos. A mente liberta é perceptiva: em vez da crítica, há a compreensão; em vez da intolerância, há o acolhimento.

Observando nossos pensamentos, compreendemos que tudo o que percebemos do exterior é uma projeção de nossas próprias mentes. A própria sociedade que nos torna doente é uma projeção da mente. Se nós a percebemos lá fora, ela existe aqui dentro. A proposta é: esvazie-se. Transcenda o convencional e harmonize-se com a realidade tal como ela é. A imagem do mundo é uma convenção que a mente utiliza para funcionar. Perceba que é uma ótica parcial e muito distante do real. A vida real não é fixa, é adaptável. A todo momento, enquanto presentes no momento, a vida vai sendo criada e está em nossas mãos fazer com que ela esteja enraizada em nossos corações ou não. Para encontrar essa raiz, é preciso mergulhar no silêncio, onde os ruídos do exterior jamais penetram.

Marco Moura


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Autor: Marco Moura   
Marco Moura desenvolve no Centro Cultural do Templo Tzong Kwan (Vila Mariana, São Paulo) atividades para o desenvolvimento integral de corpo e mente através de terapias orientais, meditação e artes marciais. Fisioterapeuta, faz atendimentos de Acupuntura; ministra aulas de Tai Chi Chuan, Kung Fu e Meditação.
E-mail: marcomoura@dao.com.br
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Publicado em 11/07/2013
 

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