Prosseguindo na suite de artigos sobre as dez etapas da iniciação espiritual, belíssimamente descritos na famosa alegoria Zen intitulada "Apascentando o Touro", na versão contida na obra "O Zen e a Oaska" do Mestre Joaquim José de Andrade Neto, segue a descrição dos passos IV a VI. Impossível não ter a alma transportada para outras dimensões, após a leitura deste texto. Devido a limitações técnicas, reproduzo os quadros VI a X, sem as ilustrações.
O HOMEM E O TOURO NA CAMINHADA ZEN
TRANSCENDENDO O TOURO
E ao chegar em casa, suspiro aliviado. Desfaço-me da corda, do chicote e do laço e, sereno, sento-me, desfrutando, extasiado, de um estado total de desembaraço. Vai-se então o touro, como eu, sereno, descoberto, reconhecido e domado, e tendo cumprido seu trabalho pleno, faz-me sentir agora bem-aventurado.
Nesta etapa, o touro deixa de ter importância, tal qual um barco utilizado para atravessar um rio deixa de nos ser útil ao atingirmos a outra margem. O iniciado agora experiencia o êxtase da unidade que lhe é inerente. Havendo transcendido a dualidade, sente-se como parte indestrutível da vida, e nem a morte o assusta. Os conceitos de bem e de mal foram ultrapassados, só existe a Luz. Nesse momento ocorre a solidão vital, pois é somente sozinho que o homem pode contemplar o próprio ser e ouvir a melodia que dele emana.
TRANSCENDENDO O TOURO E O PRÓPRIO SER.
Já não me lembro dos dias tormentosos perambulando por atalhos tortuosos buscando a causa de meus problemas. Agora findaram-se todos os dilemas tenho a mente já pacificada e a minha conduta reeducada. Nada peço ou desejo - sinto-me liberto desfrutando da alegria de me manter desperto.
O vazio equivale à pureza. Não há manchas, só luz. A iluminação impera, a mediocridade desapareceu e o espírito está livre de limitações. Todo sofrimento foi ultrapassado e ele está em paz. Iluminado e atento, o discípulo segue pelo caminho reto e já nada busca, pois se sente plenamente satisfeito.
UNINDO-SE À FONTE
Sinto a Paz de me unir à Fonte, a Luz e o Amor que provêm do horizonte. Não há dentro ou fora, cá ou lá, passado ou futuro, depois ou já. Não há mal ou bem, sujeito ou objeto. Sou uno com a vida, um ser completo. O amor é uma ordem, inunda-me pleno, e todo o meu ser repousa, absolutamente sereno.
Nesta etapa, o merecido repouso do iniciado vem coroar o cumprimento de todas as etapas anteriores.
RETORNANDO AO MUNDO PARA ATENDER AOS HOMENS
Agora sinto-me pronto e preparado para com açougueiros e bêbados conviver, homens rudes, abrutalhados, necessitando aprender a viver. Cada um deles sonha com a bonança; e a luz de Deus que através de mim emana os faz vislumbrar as benesses do Nirvana e eles se rendem à necessária mudança.
Por fim, o iniciado se torna um Mestre e está preparado para voltar ao mundo das tentações, agora com a missão de auxiliar os homens, de iluminá-los e estimulá-los a seguir os mesmos passos que ele próprio seguiu
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No início de minha caminhada as árvores não passavam de árvores, as montanhas não passavam de montanhas e os homens eram meramente homens. Ao tentar domar o touro, fui levado a crer que as árvores não eram mais árvores as montanhas não eram montanhas e que os homens não eram mais homens. Mas pacificada a mente, meu espírito iluminou-se e compreendi a beleza e a grandeza do fato de as árvores serem árvores as montanhas serem montanhas e os homens serem homens.
O iniciado, agora na condição de Mestre, rememora seu passado e se alegra com as transformações vividas: ele sabe ter passado da dormência a um estado de atenção graças à vitória de seu espírito sobre a mente. Quando ainda inconsciente espiritualmente, desconhecia sua relação mágica com o universo e encarava sua própria condição humana, os outros homens e o meio circundante com absoluta indiferença. Mas depois, quando já começava a despertar, seus velhos conceitos foram sendo substituídos por novos, e houve um grande choque entre aquilo que ele achava que era e o que realmente é. Num terceiro momento, tendo o iniciado já alcançado a consciência espiritual e estando portanto preparado para compreender a relação entre o homem e a natureza, uma árvore é para ele uma árvore em sua plenitude, e sua existência se revela, a seus olhos, como uma graça concedida à espécie humana: a sombra que se abre ao viajante cansado, os frutos que aplacam sua sede e fome, as flores coloridas que embelezam a paisagem lhe inspiram admiração e respeito. Regar suas raízes, podar seus galhos e mantê-la sadia são formas de retribuir-lhe o amor silencioso que dela emana. Da mesma forma, uma montanha é, para o iniciado, uma montanha em sua plenitude, algo não menos digno de respeito e admiração do que uma árvore. Escalando-a em direção ao topo ele tem o campo de visão ampliado, e só esse fato já é suficiente para infundir-lhe profunda gratidão por sua existência. Finalmente, um homem é visto por ele como aquilo que é: um homem, e não um animal. Deve, pois, fazer jus a essa condição, diferenciada da de todos os outros seres da Terra pelo dom de alcançar a consciência, procurando honrá-la com dignidade a cada instante.