Os estágios do desenvolvimento da consciência IIpor Aluisio Gonçalves da Silva - aluisiogs@yahoo.com.br
Passaremos agora a observar como funciona o estágio alienado. Para um desenvolvimento equilibrado dos pólos, a percepção e vivência com o estagio alienado é crucial para o crescimento humano. Na abordagem junguiana as polaridades são vitais, são tão importantes como o yin e yang na medicina Chinesa, que correspondem aos opostos complementares, por exemplo: o dia e a noite, o cheio e o vazio, o amor e o ódio, mãe e pai, o dentro e o fora e, etc.
A cristalização em um pólo pode ser danosa para a experiência humana. Aqui me refiro aos aspectos unilaterais, por exemplo; viver apenas os chamados da vida consciente e ignorar os aspectos inconscientes pode ser um risco à saúde psíquica e física, assim como o contrario também é verdadeiro.
Voltando à alienação, embora o ego inicie sua jornada em um estado inflacionado ele não poderá permanecer neste estado indiscriminado e divinizado. Na alienação, a realidade frustra as expectativas inflacionadas, deste modo ocorre um estranhamento entre o ego e o Si-mesmo. Esse estranhamento para Edinger (1995) é simbolizado por imagens como quedas, exílio, ferida sem cura etc. Quando essas imagens aparecem o ego não foi apenas castigado, mas foi ferido, podendo ocorrer um dano no eixo ego - Si-mesmo.
Segundo Edinger o eixo ego - Si-mesmo representa uma conexão primordial entre esses dois centros (ego e Si-mesmo), essa conexão deve permanecer no decorrer da vida para que o ego suporte as tensões e se desenvolva.
O eixo trata-se de um canal de comunicação entre os aspectos conscientes e a psique arquetípica. Vivências extremas e brutais, principalmente na infância, poderão levar a uma falha ou mesmo a uma ruptura com a conexão entre consciente e inconsciente e provocar a alienação do ego com relação à sua origem e fundamento (Si-mesmo).
Podemos perceber que o estado de inflação leva a criança a uma identificação do ego com o Si-mesmo, já na alienação o ego irá experimentar uma separação do Si-mesmo imposto pela realidade externa. Esses dois movimentos são necessários para o desenvolvimento da consciência, tanto da criança como do adulto.
Para a criança os pais são imprescindíveis no desenvolvimento da consciência, como veremos a seguir.
No caso do ego de uma criança, ele experimenta uma vivencia muito concreta do Si - mesmo na relação com a mãe. Segundo Edinger:
A criança tem de si mesma uma experiência bem concreta de ser o centro do universo. A mãe, a princípio, responde a essa exigência; conseqüentemente, os relacionamentos iniciais tendem a encorajar a criança a pensar que seus desejos constituem uma ordem para o mundo - e é absolutamente necessário que assim seja. Se a dedicação total e constante da mãe à necessidade da criança não for experimentada, esta não poderá desenvolver-se psicologicamente. (Edinger, 1995, p.33.)
Como podemos perceber o amor maternal é essencial para a criança suportar a rejeição que a vida inevitavelmente impõe, uma parte da estrutura do ego vai depender dessa relação primária entre mãe e filho, pois sabemos que mais cedo ou mais tarde o mundo começa necessariamente a colocar limites nas exigências feitas pela criança.
Segundo Neumann (1996), a mãe e o filho experimentam o relacionamento primário, no qual a mãe é a fonte de orientação, proteção e nutrição.
Caminhando nesta linha de reflexão, ou seja, a mãe como representante do inconsciente chegamos ao arquétipo materno que compreende não somente a mãe real de cada pessoa, mas também todas as figuras de mãe no papel de apoio, nutridora, protetora e acolhedora. (Isto quer dizer mulheres em geral, imagens míticas de mulheres como, por exemplo: Virgem Maria, Mãe Terra, Deméter e Avó).
O arquétipo materno inclui aspectos tanto positivos quanto negativos, sendo os aspectos positivos: nutrir, acolher, proteger etc. Os negativos seriam: a mãe ameaçadora, dominadora, controladora entre outros. Assim finalizo esta breve apresentação do papel materno e sua influência no desenvolvimento tanto da consciência como para o crescimento da criança.
Espero que tenha ficado claro o quanto à mãe é vital para uma estruturação do ego, principalmente no inicio da vida, pois, a criança, recebendo esse amor incondicional da mãe estará com maiores chances de estruturar o ego para suportar os limites e frustrações que a vida coloca.
Passaremos agora ao arquétipo paterno: o pai, na abordagem Junguiana, tem a função de separar a criança da mãe, pois, como foi mostrado anteriormente, a criança, na fase inicial da vida, forma um todo com a mãe, tanto nos aspectos físicos quanto emocionais desde a gestação. No momento do parto acontece a separação física da criança com o corpo da mãe, no entanto a criança permanece ainda psiquicamente ligada à mãe.
O arquétipo materno como já vimos está relacionado ao inconsciente, já o arquétipo paterno ou masculino está associado ao desenvolvimento da consciência.
O pai enquanto terceiro elemento, na dinâmica familiar é importante na estruturação do ego, principalmente no que está relacionado ao desenvolvimento da consciência.
Poderíamos refletir que sem a figura masculina a criança correria um risco de ficar presa no universo inconsciente.
De acordo com Neumann (1995), o patriarcado representa à estação solar, na qual é instalada a relação da criança com o mundo e a lei. A presença do pai na relação mãe e filho proporcionam uma ruptura na simbiose e onipotência infantil. Através da figura paterna se instala o princípio de realidade, adiamento do desejo e separação da criança do mundo materno. Com a figura do pai a criança tem a possibilidade de sair da relação de exclusivamente que vive com mãe.
O pai, portanto, frustra a criança e mostra a ela a realidade externa, o terceiro elemento entra em cena. Daí a importância do pai no desenvolvimento da consciência, bem como no desenvolvimento infantil.
Segundo Jung (2002), atrás do pai pessoal existe o arquétipo do pai, o arquétipo paterno existe antes mesmo do pai, aí esta o segredo do poder paterno. Quando falamos do arquétipo paterno é preciso compreender que através dele instaura-se a ordem, cultura, disciplina, as relações de poder, respeito às hierarquias e autoridade.
À medida que a criança vai integrando o conhecimento através das experiências parentais, ela poderá compreender, na relação com o pai, a colocar limites em si mesma e no outro.
Temos aqui as polaridades do arquétipo paterno. Em termos positivos ele representa; a ordem, estabilidade, segurança, responsabilidade e autoridade. Nos aspectos negativos encontramos a impotência, impulsividade, depressão, desumanização, sofrimento, rigidez etc.
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