ESPÍRITO DE DEFESApor Bernardino Nilton Nascimento - bernardino.nascimento@promon.com.br
Quando se vê alguém maltratar um mais fraco, quando alguém corre perigo de vida, dá um desejo de socorrer, acudir e salvar a vida de quem está em risco.
Este movimento é quase que automático e inconsciente. Por natureza, todos nós temos este instinto.
É um impulso divino de grande sabedoria e prudente dos que socorrerem aos oprimidos. Se você não segue esse movimento, torna-se um ser humano das circunstâncias, um escravo do materialismo.
Falamos muito do direito de defesa, melhor seria falar do dever, porque o direito pode ser sacrificado e é muitas vezes mais generoso renunciarmos ao nosso rigoroso direito do que reivindicá-lo com excessiva aspereza. Ao passo que a ninguém é permitido sacrificar o seu dever. Mas até que ponto a defesa é urgente, inevitável; não só a defesa do fraco, mas a defesa em geral?
Não é que tenhamos, em geral, necessidade de ser levados a nos defender. Mas trata-se de saber qual a defesa em discussão e em que espírito deve ser levado a efeito. A intensidade do seu sentimento pessoal é extrema. Tudo aquilo que choca produz o efeito de um tiro nas gargantas das montanhas: o eco repercute cem vezes e o amplifica até fazê-lo um estouro como trovão.
Ergue-se de pronto, mas observe! Ergue-se para a defesa? Não, foi antes para a vingança. Entre essas duas coisas não há relação alguma. A vingança contém elementos de baixa personalidade que vedam os olhos e ferem o coração.
O primeiro caráter da verdadeira defesa é a personalidade. Ela não é um sentimento em proveito de quem quer que seja. É uma ação de justiça e amor a vida.
Se você recebe uma injúria qualquer; se você recebe uma calúnia, se você é agredido em sua moral, antes de tudo, você pensa em vingança. Coisa essa não aconselhada, porém, creio que não devemos passar nenhuma esponja no mal feito. Mas, quando agredido, temos a obrigação de tomar medidas contra a ação hostil que se cometeu. Se você se vinga, aumenta a injustiça. Se você se deixa ferir impunemente, associa-se à impunidade e a encoraja. Encoraja não no tocante a você somente, o que seria do mal o menor. Você vai deixar que o agressor faça uma brecha por onde penetre para fazer mal a outros.
Se negarmos o dever de defesa, a injustiça, a violência e tudo quanto é honesto e pacífico se tornarão uma presa dos maus. Logo! É preciso defender a si mesmo e ao próximo. A questão não é saber que se trata dele ou de nós, mas sim que a justiça foi atingida e comprometida. Precisamos correr e sustentá-la. A defesa é sagrada. É por isso que considero corrompido o silêncio dos que se calam diante da verdade.
Entretanto, é necessário reconhecer que as armas mais fortes de que a humanidade jamais se serviu no combate contra o mal são a paciência, o perdão, a doçura e o amor. Elas fizeram mais do que vencer o adversário: ganharam-no, o que é mais difícil. E se admiramos os campeões corajosos que puseram a força ao serviço das causas justas é preciso admirar ainda mais os que resistiram pelo altruísmo, pelo sofrimento mudo, pela repulsa de si mesmos. A eles cabe a vitória suprema e só eles têm o direito de ensinar a justa defesa, porque a praticaram na mais sublime das formas. Creio que nos conservamos fiéis aos seus espíritos, dizendo: Em qualquer ocasião, lutar contra o mal é um dever absoluto.
Sobretudo, o que nunca se deverá esquecer é o espírito da defesa. Tudo está nisso. Assim como você pode ferir mais mortalmente com a palavra do que com uma bala, ou praticar um ato cruel sob aparência de doçura, assim também pode curar o mal antes de deixar a violência denominar você e todos que estão ao seu redor.
Permitir, insistir neste espírito de defesa. Temos tanta necessidade de ser conduzidos constantemente pelo amor. Não vejo senão pessoas que exercem a vingança e pouquíssimas as que compreendem a verdadeira defesa. A maioria, quando não se trata deles, não se move. Para perdoar seu medo, dizem alguns: Deus, a verdade e a justiça a ti pertencem: não têm necessidade de nós. Que erro grosseiro! A conseqüência seria a renúncia de toda atividade. Para que estaríamos aqui, se nada temos que fazer? Infelizmente é por nós que vem o mal e não há nenhuma esperança de que ele seja nunca reparado e vencido senão por nós.
Deus atua na humanidade pelas forças humanas, como na natureza pelas forças naturais. Então, podemos dizer que nenhum ser humano é necessário, que os melhores podem vir a faltar sem que a obra cesse; mas convém não exagerar esta maneira de ver. Sob certo ponto de vista é inteiramente justo e encorajador dizer que somos necessários. E de fato ficam muitas lacunas, lugares vazios, brechas terríveis, após o desaparecimento da verdadeira justiça. Não digamos, pois, nunca, que o bem virá por si mesmo e sem nós. Digamos ainda menos que o mal que se faz não diz respeito a nós, desde que ele não nos ataca diretamente em nossos corpos ou em nossos bens.
O mundo está cheio de pessoas denominadas boas que fazem esse raciocínio cômodo. É verdade que se eles são atingidos, por sua vez, são os que mais alto gritam por socorro.
Temos que encher os nossos dias úteis e nossos corações de belos e grandes pensamentos que ajudarão a vencer o mal que está em nós. Defender os fracos, defender os pobres e os ausentes.
Se não conhece aquele a quem atacam, manifeste que não aceita o que se diz contra ele senão a benefício de inventário e até que ele tenha tempo de se defender. Observe que em todas as sociedades, uma voz que defende um ausente, seja ela a de um pobre ou a de uma criança, tem grande força contra uma multidão de vozes acusadoras e contra o silêncio dos indiferentes.
Dentre os ausentes, os mais desarmados são aqueles que se ausentaram para sempre. É preciso defender os que partiram.
Devemos respeitar o ser humano até depois de sua partida, vamos compreender que não basta que um ser humano morra para se reduzir a nada. Vamos perceber que o melhor do que possuímos nos vem dos que partiram por alguma santa causa. Assim, é sua herança, é sua memória, seu amor, seu espírito que nos penetram para o aviso do amor à vida e ao próximo.
Para o bem de todos foi que deram a própria vida e no mistério em que entraram esperam que outros recomecem o trabalho que eles deixaram inacabado.
A que maior graça pode aspirar uma pessoa do que a de sentir acordar na sua alma a alma dos grandes imortais?
Assim, passo a passo, a defesa da justiça nos conduz mais alto. É um caminho que sobe e, chegando ao auge, nos faz transpor e ver abrir uma clareira na vida que não tem fim.
BNN
Texto revisado
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