Individuação e o Self - Essa Força Estranhapor Bruno Weyting Calabria - brunocalabria@hotmail.com
Jung nos apresenta diversas definições de individuação ao longo da sua obra:
“Uso o termo individuação no sentido do processo que gera um in-divíduum psicológico, ou seja, uma unidade indivisível, um todo” (in Os arquétipos e o inconsciente coletivo, pág. 269)
“Em geral, é o processo de constituição e particularização da essência individual... e é portanto um processo de diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual... e é uma necessidade natural” (in Tipos Psicológicos, pág. 525, 4ª Ed. Zahar Editores)
Ou seja, para Jung, o instinto de individuação é a mola propulsora da busca pela realização total da personalidade - um processo que tem início na formação da identidade, e estende-se por toda vida psicológica consciente. (in Tipos Psicológicos, pág. 511 e pág. 527, 4ª Ed. Zahar Editores)
Podemos inferir daí que, enquanto houver atividade do Self, ou seja até mesmo na iminência da morte física, é possível localizarmos (ou postularmos) seu esforço em busca da expressão total da personalidade, (um ideal inatingível, segundo Fordham).
A Função Transcendente
É a responsável pela união ("integração") de conteúdos conscientes e inconscientes, e resulta de um processo de confrontação entre, por assim dizer, o que "achamos que somos" - no consciente, e parte de nossa "Persona", e o que "realmente somos" - aquilo que está no nosso inconsciente, na nossa área de "Sombra".
Jung nos adverte que a função transcendente não é algo automático: ela exige coragem, perseverança e esforço por parte do indivíduo, pois, por vezes, o indivíduo sucumbe à pressão do Self, como descreveu Berardi em seu trabalho “Individuação: do Eu para o Outro, Eticamente”, apresentado no III Congresso Latino Americano de Psicologia Junguiana:
“ Jung sempre enfatizou sua importância no relacionamento entre o consciente e o inconsciente; no prefácio ao seu texto "A Função Transcendente", escreveu em relação às fantasias e imagens do inconsciente: “O significado e valor dessas fantasias somente serão revelados através de sua integração na personalidade como um todo - quer dizer, no momento em que se é confrontado não apenas com o que elas significam, mas também com suas demandas morais (in A Função Transcendente, Obras Completas, Vol. VIII, pág. 68)”.
Este aspecto é também abordado por Carlos Byington: "... Quando a função estruturante da ética sofre uma fixação, torna-se função estruturante defensiva, passa a atuar na sombra e, como qualquer outra função psicológica, pode fazê-lo dentro das dimensões neurótica, psicopática, borderline ou psicótica. A psicologia simbólica junguiana não diferencia entre a função estruturante defensiva da psicopatia, do mau-caratismo ou da desonestidade. Psicodinâmica e cientificamente, essas condições humanas expressam a atuação defensiva da função estruturante da ética na dimensão psiquiátrica (entrevista publicada na "Junguiana", revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, São Paulo, nº 22, 2004.)
Em casos extremos, como nas psicopatias - aí incluídos os bordeline, neuróticos e indivíduos em quadro de transtorno de personalidade social, e nas psicoses, acarreta não a cessação total, mas alterações na qualidade e/ou continuidade do curso do processo (de individuação), tal como abordado na entrevista de Carlos Byington, o que é evidenciado no trabalho clínico da Dra. Nise da Silveira, realizado com diversos internos psicóticos do Engenho de Dentro:
“... a criatividade artística é uma dimensão específica da criatividade em geral, subordinada à função estruturante da estética, que elabora os símbolos dentro de, um contexto particular que denominamos arte. Como as demais funções estruturantes, ela pode ser não fixada ou fixada-e-defensiva na sua expressão. Um artista pode sofrer o bloqueio da sua função criativa porém expressá-la de forma defensiva, de maneira psicótica. como ocorre no filme O iluminado, de Kubrick. O fato de a função estruturante artística estar associada a outras funções estruturantes, como a agressividade ou a sexualidade não fixadas ou fixadas, é secundário e não deve ser usado como critério para diagnosticar a expressão fixada ou não fixada da função estética. O mesmo acontece com a polaridade construtivo-destrutivo.
(Ou seja, ) Uma pessoa pode ser muito criativa esteticamente, mas isso não significa de modo algum que ela também o seja nas demais funções estruturantes. Há artistas muito doentes psicologicamente, com os quais o convívio íntimo é uma tortura, mas que nem por isso deixam de ser menos criativos do ponto de vista estético.
Faço questão de enfatizar que a função artística tem, ela própria, características não fixadas e fixadas, as quais não devem ser confundidas com as de outras funções estruturantes.
Em outras palavras, para falar da psicopatologia de uma personalidade artística há que se diferenciar claramente aquilo que se refere à arte daquilo que diz respeito a outras funções estruturantes. O fato de Van Gogh ter sido depressivo afetou as imagens de sua pintura, mas não a grandeza maior ou menor de sua arte. Por outro lado, há pessoas muito criativas nas dimensões política, religiosa, amorosa e científica, que podem ser muito pouco criativas na dimensão estética."
Mais adiante, na mesma entrevista, Byington comenta:
“A individuação inclui a luta permanentemente entre o bem e o mal, desde o início da formação do ego, pois essa luta é a própria disputa entre o ego da consciência e o ego da sombra, cujos embates pontuam a vida das pessoas e da humanidade. O máximo do esforço criativo do arquétipo central para continuar o processo de individuação faz-se na vigência do mal terrível das fixações dentro dos dinamismos psicopático e psicótico. Coube ao gênio de Nise da Silveira demonstrar essa dramática verdade ao documentar a continuação inconteste do processo de individuação em casos de esquizofrenia crônica até as vésperas da morte (vejam os vídeos sobre Carlos Pertuis, Fernando Diniz e Adelina Gomes, feitos por Leon Hirszman e coordenados pela Dra. Nise para a Funarte, na biblioteca da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA).
(Carlos Byington, entrevista publicada na Junguiana, revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, São Paulo, nº 22, 2004)
Concluindo, eu diria que sim, a individuação pode acontecer, mesmo nos estados de transtorno e psicóticos, e que no centro de tudo, na origem de tudo, atua o Self, essa força estranha - que nos exige, cobra, empurra, dia e noite, sem cessar, sem concessões, indiferente ao que "achamos que somos", e à nossa dor, na direção do que realmente devemos nos transformar - nós mesmos.
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