Um dia perfeitopor Instituto De bem com a alma - debemcomaalma@debemcomaalma.com
Da janela lateral, eu olho o horizonte. Dia cinza. Sonolento. Uma chuva fina e insistente cai sobre todos. Trânsito parado. Motoqueiros buzinando. Calçadas lotadas de lixo não recolhido na noite anterior. Gente que vai e vem. Pisam e pioram a calçada.
Vizinhos saindo para o trabalho. Vão a pé pra fugir do trânsito. O mesmo trânsito que os sufocarão nos transportes coletivos.
Uma pessoa varre a rua. Varre a parte que lhe cabe, a frente de sua casa. De onde estou é possível ver certa ordem na sua calçada, que passa despercebida do ponto de vista das demais. Para elas, tanto faz. Não ficarão ali. Passam apenas. Cada uma tem em mente tarefas imediatas. Não estão interessadas em mais nada.
O sinal abriu e logo fechou, pegando de surpresa muitos motoristas. Outros nem se deram conta. A avenida não andou. A eletrônica falhou. O trânsito da transversal não anda. O sinal aberto não abre a possibilidade de avançar. Ouço insultos ditos em silêncio. Pensados. Frago alguém na intenção de um gesto obsceno.
Na construção ao lado, mais um edifício sobe a cidade. Operários ruidosos desfazem as formas, para recomeçarem mais um andar. Serão varias colunas e mais uma laje. Nessa ordem, até o topo.
Dia e noite, muitas luzes chamam a atenção para si e para as antenas que as sustentam. Umas são fortes, outras pela metade. Umas vem e vão lentas, outra de súbito, quase um grito. Painéis luminosos, formados por milhares de pequenas luzes, estampam cores e letras dos produtos que lhes pagam as contas.
Um helicóptero voa acima da cidade. Ora pára e paira, pra contar. Ele conta o trânsito parado, em quilômetros. Ele informa pra várias estações de rádio e TV, como está a caótica situação do trânsito. A estação por sua vez, aconselha e orienta a quem está sintonizada. Evite esta ou aquela rua. Não vá para aquele bairro, mesmo que a sua família more lá.
O trânsito, a construção, O tráfego aéreo e as luzes, todos concorrem para fazer o maior ruído possível. Querem a minha atenção. Assim como me chamam para o trabalho. Para assumir o meu papel na cidade. Reclamam por uma atitude. Só eu não estou correndo. Não estou dirigindo. Não estou molhado. Não estou preocupado...
A porta do meu quarto se abre e nela uma pessoa linda irradia um sorriso maravilhoso. Convida-me pro café da manhã. Estende-me a mão. Pego aquela mão macia, delicada. Sigo na direção de um leve puxão... Que me desculpem os senhores trabalhadores dessa cidade. Que me perdoem quem precisa correr, dirigir e trabalhar. Hoje eu estou de folga. Ficarei o dia inteiro com a pessoa amada. Amar e ser amado. Hoje é meu dia de gente. Tenha um bom dia cidade. Eu terei o meu com ela. Que é linda e me faz feliz.
Enoc Cuité Lopes
Texto revisado por: Cris
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