Re-encantamento do Mundo - Jens Federico Weskott
 
Re-encantamento do Mundo
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Re-encantamento do Mundo

por Jens Federico Weskott - jweskott@uol.com.br

Segunda Expulsão do Paraíso. Enquanto o Cristianismo oferecia certezas absolutas, na Era Moderna, esse leque de convicções indubitáveis começou a ser questionado. Algo similar a uma sutil desintegração. Bacon e Descartes, Newton e Galileu, o mundo foi desencantado, a crença na razão instituída.

1600. O mundo emocional, considerado não confiável, foi relegado a uma caverna escura, onde somente Freud veio a resgatá-lo ‘cientificamente’. A razão, o intelecto se entendiam como a parte superior do ser humano.

Logo uma ressalva: não se está afirmando que a razão não mereça fé.
Bem pelo contrário, impressionantes conquistas e realizações das ciências, da tecnologia, tem provado, exaustivamente, que a especialização humana em apenas um nível de consciência é capaz de dar frutos abundantes. A glorificação do intelecto é talvez a maior aventura do gênio ocidental: impressionante em seus resultados magníficos, extraordinária também na sua unilateralidade reducionista.

Após quatrocentos anos de ‘desencantamento’, eis aqui os valores comuns da ‘elite esclarecida’ ocidental:

Amor tem a ver com libido;
Opinião política tem a ver com classe social;
Religião tem a ver com fantasia;
Pobreza tem a ver com falta de oportunidades.

São valores de uma humanidade sem ilusão nem esperança – mostram quanto os pensadores Darwin, Marx e Freud, pessimistas, estragaram o entendimento natural do homem e da natureza. Infelizmente, foi a falta de compreensão das idéias de Darwin que talvez haja causado o dano maior.

Pensava-se que cada um tinha direito a procurar sua felicidade (correto) a custo dos demais e à custa da natureza (duplamente errado). Até haveria direito de lutar contra os demais a fim de garantir o próprio bem-estar. Foram as mal-entendidas idéias darwinianas que serviram para justificar a exploração do homem pelo homem e a destruição progressiva da natureza.

Nesta travessia, perdeu-se a sabedoria elementar que tudo na natureza está baseado na cooperação e não na disputa ou competição. Nada melhor para detectar essa mudança cultural que comparar os padrões que orientam o relacionamento das pessoas. Na falta de valores de aceitação geral, homens e mulheres, cada vez mais, se comportam como bem entendem...

Papéis exaltados, consciência dividida. Sexo, afirmam alguns críticos da civilização ocidental, tornou-se esporte. Pelo menos para muitos homens. Já as mulheres agiam de acordo com a sua programação emocional e cultural, que raramente separa sexo do amor. Até surgir a revolução sexual. Desde então, reclamam para si o mesmo comportamento. Seria esse o relacionamento ideal entre os sexos?

Tema de espinhos mil. Haverá uma fonte isenta, abrangente, capaz de falar ‘do alto’, a qual recorrer? Sugiro Jane Roberts, talvez a médium mais competente do século XX: “O amor vive, tenha ou não expressão sexual, se bem que para o amor o desejo de expressar-se sexualmente é natural. O amor exige lealdade. Exige abnegação. Isso vale tanto para relações homossexuais e lésbicas como para ligações heterossexuais”.

“Ao homem, especificamente, foi ensinado separar amor e sexo, resultando de aí uma situação decididamente esquizofrênica, que – vista funcionalmente – dilacera-lhe sua psique enquanto vive sua vida. A expressão da sexualidade é considerada masculina, enquanto a expressão do amor não”.

“Esta infeliz separação (entre amor e sexo) conduziu a vossas grandes guerras. Isto não quer dizer que os homens, por si sós, sejam responsáveis pelas guerras. Mas significa que o homem afastou-se tanto da fonte comum de amor e sexualidade que as energias reprimidas se descarregam na forma desses agressivos atos de violência cultural e assassínios em massa, em vez de gerar filhos,” afirma em 1976.

Contornando a deficiência amorosa. O que opina um autor de nossos dias? “Mulheres, nota 4, homens, 2! Procuro registrar a maior capacidade amorosa das mulheres, mas sempre enfatizando que os dois gêneros mantêm a grande deficiência de amor em que estamos mergulhados” coloca Joaquim Zailton Bueno Motta.

“Homens e mulheres envolvendo-se nas mais gratificantes oportunidades de prazer até nos piores momentos de decepção. Entre excepcionais enlevos românticos e rivalidades sexistas intensas, os dois gêneros vão seguindo suas relações de amor e ódio”, continua o médico psicoterapeuta e sexólogo.

“O amor feminino é distinto do masculino. Se formos mais rigorosos, diremos que a mulher é quem ama de verdade, ela é quem faz a vinculação afetiva, ao passo que o homem se ajusta aos acontecimentos”.

“Ao longo dos séculos, a mulher tem vivido em função do homem, do amor que desenvolve por ele e de tentar ensinar-lhe amar como ela. Ainda que tenha demonstrado a própria habilitação afetiva, não conseguiu ser uma professora de amor bem sucedida. Por seu turno, como aluno sentimental, o homem não chegou a se diplomar”.

Entre outras coisas, Motta propõe que o homem passasse a exercer paulatinamente a responsabilidade do amor. “Seguir para o melhor destino amoroso implica um reconhecimento imediato: precisamos assumir nossa deficiência amorosa. Amamos pouco e mal, insuficiente e incompetentemente, no casal, na família, na amizade e na sociedade”.

Re-encantamento a dois. Apesar desta situação, haverá chances para um pouco mais de poesia no mundo? Navegando com velas tão frouxas? Em O Monge e o Executivo, James C. Hunter pergunta: Amor – Sentimento ou Ação?
“Nem sempre posso controlar o que sinto a respeito de outra pessoa, mas posso controlar como me comporto em relação aos demais”.

“Os sentimentos variam, dependendo do que acontece... Enquanto os pontos-chaves do amor são paciência, bondade, humildade, respeito, generosidade, perdão, honestidade, confiança – todos eles comportamentos”.

Ações como estas não estão dentro do leque de nossas práticas possíveis? Relacionamentos clamam por atitudes. Por quais começar? Tem de haver um inicio comportamental. Saber controlar-se, escolher entre várias atitudes continua algo essencialmente humano.

Quem melhor que o casal, ávido por amar, por amor recíproco, para treinar? Uma ação por dia. Não três, nem cinco, uma só. Noutro dia, outra.
Pé no chão.

Robert A. Johnson cita Jung: “Se descobrimos a ferida psíquica de um individuo ou num povo (aqui: de um casal), aí descobrimos também o caminho para a conscientização, pois é no processo de cura de nossas feridas psíquicas que acabamos por nos conhecer a nós mesmos”.

De um chão raso podemos erguer uma nova e sólida casa apenas a partir do respeito mútuo. Casais em paz e felizes praticam valores. Criam espaço para sentimentos amorosos. São a base de sociedades satisfeitas.
Com o casal começa o re-encantamento do mundo.

Texto revisado por: Cris



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