Jung e a Era de Aquáriopor Isabela Bisconcini - belabi@ajato.com.br
Segunda-feira, sentei-me pensando em escrever ainda sobre o Masculino e o Feminino, para concluir e amarrar algumas idéias dos outros artigos: “Sobre o Masculino e o Feminino, ou a União do Céu e da Terra” e “Ainda Sobre o Masculino e o Feminino: Luzes de cristal Puro”. Não saiu nada. Apaguei o que tinha escrito e desisti, frustrada. Terça-feira, conversando com uma amiga, entendi porque não tinha saído nada: porque precisava falar sobre o que está se desenhando através das vivências coletivas de homens e mulheres. Sentei-me de novo para escrever e, no fim das contas, vi-me escrevendo sobre a criação da consciência, sobre como cada situação pessoal é célula levando adiante o crescimento da consciência. Parei, “terminei” o texto ontem (o texto nunca parece terminar) e postei-o no site: “A Criação da Consciência, o Mito do Nosso Tempo”.
É curioso o curso que o processo de criação tem. Nunca sei onde o texto vai me levar. Lógico que corto, troco palavras, mudo frases e parágrafos de lugar várias vezes... mas há um curso, um fluxo, que se desenrola de maneira muito interessante e que faz com que o texto vá numa direção não predeterminada.
Por que isso? Porque ao escrever sobre a criação da consciência, me remeti ao livro de Edward Edinger, analista junguiano, “A Criação da Consciência”, ed. Cultrix, 1984, lido pela primeira vez há, talvez, 20 anos e que foi leitura que mudou – de fato – minha vida. Mas escrevi o texto de memória, não fiz nenhuma consulta ao livro, até porque ele estava no consultório. Mas, depois, chegando lá, fui consultá-lo e me surpreendi muito, mas muito mesmo, e senti uma alegria indescritível ao reler tantos anos depois passagens que foram escritas quando não se percebia nada como hoje percebemos. Jung viveu de 1875-1961. Suas descobertas foram proféticas, como foram as de Einstein, Neils Bohr, Dr. Bach, Rudolf Steiner, pois eram vistas por muito poucos. O que Jung disse e viveu de maneira tão solitária (como todo visionário) está sendo visto por tantas outras pessoas bem rapidamente. Vamos às frases:
“O mito da encarnação necessária de Deus (...) pode ser entendido como o confronto criativo do homem com os opostos e a síntese deles no eu: a completude de sua personalidade (...). Essa é a meta (...) que integra significativamente o homem no esquema da criação e, ao mesmo tempo, dá sentido a ela”. C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections.
As seguintes passagens são de Edward Edinger, sempre em "A Criação da Consciência":
“A história e a antropologia nos ensinam que a sociedade humana não pode sobreviver por muito tempo, a menos que seus membros estejam psicologicamente contidos num mito central vivo. Esse mito proporciona ao indivíduo uma razão de ser. (...) E quando a minoria criativa e intelectual está em harmonia com o mito predominante, as outras camadas da sociedade seguem sua liderança, chegando mesmo a poupar-se de um confronto direto com a questão fatídica do sentido da vida. É evidente para as pessoas reflexivas que a sociedade ocidental já não possui um mito viável, operante. De fato, todas as principais culturas mundiais aproximam-se, em maior ou menor grau de um estado de carência de mitos. O colapso de um mito central é como o estilhaçamento de um frasco que contém uma essência preciosa: o líquido se derrama e se escoa, sugado pela matéria indiferenciada à sua volta. O sentido se perde. Em seu lugar, reativam-se os conteúdos primitivos e atávicos. Os valores diferenciados desaparecem e são substituídos por motivações elementares de poder e prazer, ou então o indivíduo expõe-se ao vazio e ao desespero. Com a perda da consciência de uma realidade transpessoal (Deus), as anarquias interna e externa dos desejos pessoais rivais assumem o poder.
(...)
“É a perda de nosso mito continente que está na raiz de nossa atual angústia individual e social, e nada, a não ser a descoberta de um novo mito central, vai resolver o problema para o indivíduo e para a sociedade. De fato, há um novo mito em formação, e C. G. Jung tinha uma aguda consciência desse fato. Certa vez, um analista junguiano teve o seguinte sonho:
“Um templo de amplas dimensões estava em processo de construção. Até onde eu podia ver – à frente, atrás, à direita e à esquerda – havia um número incrível de pessoas construindo pilastras gigantescas. Também eu estava construindo uma pilastra. O processo total de construção estava em seus primórdios, mas as fundações já estavam lá, o restante do edifício começava a erguer-se, e eu e muitos outros trabalhávamos nele.
“Este sonho foi contado a Jung que fez o seguinte comentário: “Sim, você sabe, esse é o templo que todos construímos. Não conhecemos as pessoas porque, pode acreditar, elas constroem na índia, na China, na Rússia e por todo o mundo. É a nova religião. Sabe quanto tempo vai demorar até que esteja construída? ... cerca de seiscentos anos” (in Max Zeller, The task of the Analyst – Psychological Perspectives, primavera de 1975).
Esta passagem realmente me arrepia e me emociona muito. O texto de Zeller é de 1975, mas Jung disse isso com tranqüilidade e clareza muito antes, pois ele morreu em 1961!
Edinger escreveu tudo isso na década de 80. Mas Jung se deu conta da carência do mito, e da crise do homem moderno (conforme nos relata na sua biografia: Memórias, Sonhos e Reflexões) logo após a publicação do seu livro “The Psychology of The Uncounscious”, em 1912.
Vislumbrou seu novo mito ao visitar os Índios Pueblo, em 1925, no sudoeste dos Estados Unidos, e cristalizou a formulação do novo mito de modo mais explícito ainda em 1925, quando viajou pela África.
Edinger continua:
“Jung foi um homem-marco. O homem-marco é o primeiro a experimentar e a articular integralmente uma nova forma de existência. Desse modo, sua vida assume um significado objetivo, impessoal. Torna-se um paradigma, a vida prototípica de uma nova era e, por conseguinte, exemplar. (...) “Uma característica notável do novo mito é a sua capacidade de unificar as diversas religiões atuais do mundo. Ao encarar todas as religiões em atividade como expressões vivas do simbolismo da individuação, isto é, o processo de criação da consciência, lança-se uma base autêntica para uma verdadeira atitude ecumênica.
“Pela primeira vez na história, dispomos agora de uma compreensão do homem tão abrangente e fundamental que pode ser a base da unificação do mundo – primeiro religiosa e culturalmente e, no devido tempo, politicamente. Quando indivíduos em número suficiente forem portadores da “consciência da completude”, o próprio mundo se tornará completo”.
Bom... é verdade que depois que re-descobri tudo isso, tive que voltar ao texto do primeiro artigo e modificá-lo novamente (falei que o texto não termina nunca!), e ainda por cima, “tive que” fazer outro, pois não consegui deixar de compartilhar a alegria que senti ao ler estas palavras e ver como andamos rápido dos anos 80 para cá, como estas palavras são tão claras hoje em dia!!!!
É sincrônico recuperar esta leitura 25 anos depois, em tempos de alinhamento planetário da Era de Aquário, pelo simbolismo que isto representa.
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