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A dor da ingratidão
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A dor da ingratidão

por Claudia Gelernter - claudiagelernter@uol.com.br

“O verdadeiro desinteresse pessoal é uma coisa tão rara sobre a Terra, que se o admira como um fenômeno quando ele se apresenta”. O Livro dos Espíritos

“Doeu. Ainda dói. Depois de tudo o que eu fiz por aquela pessoa, depois de tanta dedicação, ela me faz isso... como pôde? Nunca vou esquecer”.

Você já pensou ou falou esta frase, caro leitor? Raríssimas as pessoas que não experimentam ou já experimentaram a dor que oprime o peito, sintoma natural daqueles que ofereceram o coração e de retorno colheram espinhos. Certamente, ninguém neste mundo gosta de ser maltratado ou receber indiferença das pessoas. Muitos de nós penamos anos, décadas até, sofrendo a dor da ingratidão, sem conseguir paz. Entretanto, é preciso analisar mais profundamente as fontes de nossas mágoas antes de fecharmos a questão, assim, de forma simplista. Será que tudo é uma questão de ação e reação? "Fiz e ela não foi grata, então surgiu a mágoa e não consigo mais me livrar dela". Ponto. Não, as coisas não são assim tão simples. Convido-o a responder três pequenas perguntas, que acredito serem importantes para o sucesso de nossa análise.

Cada questão traz, em si, uma oportunidade maior de reflexão, caso tenha paciência para questionar-se, de forma honesta.

1. O que te moveu a fazer algo de bom para aquela pessoa?

Se sua resposta foi “amor”, sinto muito, mas é preciso discordar. Acontece que o amor não cobra: ele apenas dá. Só aqueles que vendem benefícios podem cobrar algo, tal como gratidão, reconhecimento, afeto, etc. Quem doa não cobra. E o amor apenas doa, ele não vende. Entretanto, se sua resposta foi “fiz porque ela insistiu, mas nem queria ter feito”, daí sua dor pode até se justificar, mas em parte. Isso porque após ter decidido por fazer, o depois já não dependia mais de você, mas apenas do outro. Por que se lamentar pelo que o outro não consegue fazer? Um dia ele fará acertos na conta universal. O banco divino pode não cobrar juros altos, mas certamente busca do devedor os devidos acertos, no tempo certo.

2. Por que a reação dela te faz tão infeliz?

Acontece que não esperava isso de volta. Ninguém gosta disso”. É verdade. Ninguém gosta disso. Mas entre sentir uma ponta de raiva e ficar ruminando mágoas intermináveis existe uma longa distância. Dá pra ficar bravo mesmo. Isso porque ainda não conseguimos exercitar o amor incondicional, aquele que nos dá paz em qualquer situação; mas odiar, cultivar mágoas intermináveis não se justifica. Depois da raiva, o negócio é trabalhar para racionalizar o que aconteceu. “Fiz, o outro não soube receber com dignidade; problema dele, não meu! Oras, a mágoa me fará adoecer. Por que cultivá-la?” Quem racionaliza isso, trabalha por esquecer, por perdoar. E segue a vida “tocando em frente”, como nos diz o cantor e compositor Almir Sater em sua maravilhosa melodia.

3. Qual seu plano para o futuro, dentro desta questão?

Nunca mais faço nada por ela e, se alguém perguntar, ainda comento o que me fez e acabo com sua falsidade, com sua reputação”. Esta é resposta mais comum entre nós seres humanos. Talvez por este motivo a psicossomática tenha tanto a pesquisar na atualidade. Deve ser por este motivo que também o Prozac esteja fazendo tanto sucesso. Não é por menos. Cada vez mais somatizamos doenças nascidas de nossa mente enferma, melindrosa, egoísta, orgulhosa. Cada dia mais buscamos fora as ferramentas que não dispomos, interiormente. Falta de perdão é falta de bom senso. Guardar mágoa é tomar veneno. Além do mais atire a primeira pedra aquele que nunca foi ingrato com ninguém nesta vida. Será que algum de nós conseguiu passar pela temerosa fase da adolescência sem chatear os pais com algum despautério injustificável? Arriscamos dizer que não.

Perceba, leitor amigo, que as questões propostas tratam dos três tempos possíveis: passado, presente e futuro. Se no passado sua ação esteve mesmo baseada em um sentimento superior, já naquele momento deveria estar em paz, sem nem precisar buscar perdoar, uma vez que todo o bem por ti realizado não vislumbrava nenhuma recompensa, a não ser a felicidade do beneficiado. Se no presente seu sentimento, suas ações trabalham no sentido da manutenção da mágoa, é preciso parar e fazer uma avaliação dos prós e contras desta situação. E podemos afirmar que os prós (mesmo contra suas expectativas) sequer existem...

Por fim, se pensas em sustentar a mesma situação, no futuro, certo é que a dor – divina pedagoga – ainda terá muito a trabalhar em seu íntimo.

Perdoar é exercício de inteligência.

É deixar de patinar na vida, derrapando no óleo da angustia, na graxa do tormento.

Esquecer as ofensas é, ainda, profilaxia da alma. É cuidar-se para não cair nas teias da doença, tecida dia após dia, pelas agulhas de nossas imperfeições.

Só os que perdoam vivem livres, prontos para experienciar o novo, percebendo no mundo muito do que ele tem de bom a oferecer.

Texto revisado




por Claudia Gelernter   
Tanatóloga e Oradora Espírita, professora e coordenadora doutrinária
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E-mail: claudiagelernter@uol.com.br
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