Jung e o Inconsciente Coletivo  
   

Jung e o Inconsciente Coletivo

Autor Bruno W Calabria - brunocalabria@hotmail.com


Filosofia, Mitologia e Alquimia

Soube Jung transitar por esses domínios, fugindo ao misticismo, investigando sempre, sem nunca abandonar o esforço pelo método e o rigor científico. Obsessiva discrição nas crenças pessoais, ética, uma atitude de questionamento constante e, sobretudo, cuidadoso na pretensão de estabelecer verdades definitivas sobre este ou aquele assunto.

Inconsciente Coletivo

“Ele me tomou pelo braço dizendo que queria mostrar uma coisa: se eu movesse a cabeça de um lado para outro, o pênis do sol mover-se-ia também, e esse movimento era a origem do vento”.

Corria o ano de 1906 e esta frase foi pronunciada por um paciente esquizofrênico paranóide, interno do hospital Burgholzli em Zurique, que foi atendido pela equipe do Professor Jung.

Até então, Jung havia trabalhado normais, neuróticos e psicóticos; familiarizara-se com os mais variados materiais da vivência pessoal de cada paciente e, por meio do método de associação de palavras e da observação clínica, chegou mesmo a desvendar a significação de muitas dessas manifestações.

Porém, apesar daquela extensa vivência clínica acumulada, havia manifestações cujas raízes Jung não conseguira identificar até então, especialmente aquelas originadas em pacientes psicóticos.

Em 1910, ao ler reproduções de antigos manuscritos gregos que relatavam visões dos adeptos de Mitra, Jung se deparou com uma pista para a chave desse enigma. Uma das visões era descrita assim: “E também será visto o chamado tubo, origem do vento predominante. Ver-se-á no disco do sol algo parecido a um tubo, suspenso. E na direção das regiões do Ocidente é como se soprasse um vento de leste infinito. Mas se outro vento prevalecer da direção das regiões do oriente, ver-se-á da mesma maneira o tubo voltar-se para aquela direção”.

Um outro episódio, um sonho, dentre tantos outros, ocorrido em 1909 durante a viagem com Freud aos Estados Unidos, apontou na mesma direção, e foi quando pela primeira vez Jung concebeu a idéia de um inconsciente “coletivo”. Nas suas próprias palavras: “Principalmente um deles (o sonho) me pareceu importante, levando-me pela primeira vez à noção do “inconsciente coletivo”. (Memórias, Sonhos, Reflexões, Ed. Nova Fronteira, 5ª ed., pág.143)

Eis o sonho:


“Eu estava numa casa desconhecida, de dois andares. Era a “minha” casa. Estava no segundo andar onde havia uma espécie de sala de estar, com belos móveis de estilo rococó. As paredes eram ornadas de quadros valiosos. Surpreso de que essa casa fosse minha, pensava: “Nada mau!”. De repente, lembrei-me de que ainda não sabia qual era o aspecto do andar inferior. Desci a escada e cheguei ao andar térreo. Ali, tudo era mais antigo. Essa parte da casa datava do século XV ou XVI. A instalação era medieval e o ladrilho vermelho. Tudo estava mergulhado na penumbra. Eu passeava pelos quartos, dizendo: “Quero explorar a casa inteira!”. Cheguei diante de uma porta pesada e a abri. Deparei com uma escada de pedra que conduzia à adega. Descendo-a, cheguei a uma sala muito antiga, cujo teto era em abóbada. Examinando as paredes descobri que entre as pedras comuns de que eram feitas, havia camadas de tijolos e pedaços de tijolo na argamassa. Reconheci que essas paredes datavam da época romana. Meu interesse chegara ao máximo. Examinei também o piso recoberto de lajes. Numa delas descobri uma argola. Puxei-a. A laje deslocou-se e sob ela vi outra escada de degraus estreitos de pedra, que desci, chegando enfim a uma gruta baixa e rochosa. Na poeira espessa que recobria o solo havia ossadas, restos de vasos e vestígios de uma civilização primitiva. Descobri dois crânios humanos, provavelmente muito velhos, já meio desintegrados. Depois, acordei.”

No caso do primeiro sonho, o do “falo do sol”, a similaridade das visões de origens tão diversas, seja no tempo, seja no contexto cultural, ambas porém de origem mítica, é clara, impressionante e imediatamente chamou a atenção de Jung.

Já no sonho seguinte são claramente descritos os diversos níveis de consciência interna que lhe ultrapassavam o período de vida presente, tais como camadas superpostas de vestígios arqueológicos. Relatou Jung, que este sonho, além de tê-lo feito postular a existência de um inconsciente “coletivo” pela primeira vez, renovou-lhe o interesse pela arqueologia.

Dra. Nise da Silveira, em seu livro “Jung: Vida e Obra” relata o sonho, registrado por Jung, de uma paciente que sonhou com uma águia que comia as próprias asas, sonho esse que havia intrigado Jung sobremaneira; e tempos depois, durante pesquisas na área da alquimia, consultando uma galeria de gravuras, deparou-se Jung com uma gravura que mostrava... uma águia comendo as próprias asas!

A impressão causada por essa coincidência foi tão forte que Jung aprofundou seus estudos de alquimia e, se antes os textos alquímicos dos antigos lhe pareciam demasiado confusos, após aplicar-lhes métodos usualmente utilizados na decifração de línguas desconhecidas, Jung pôde descobrir-lhes um sentido inteiramente novo e grandioso: o processo alquímico de transformação era inteiramente análogo ao processo de individuação; a busca da pedra filosofal é análoga à busca do Self.

Como afirmou Jung em várias ocasiões, “nunca se sabe como as coisas acontecem”; e talvez como não poderia deixar de ter sido, dado que estava se aventurando por domínios nunca antes explorados, Jung deparou-se com inúmeros enigmas ao longo da vida, dispondo de poucas técnicas, como a associação de palavras, questionários, os quais a propósito aprimorou, bem como o método de atendimento clínico que se adotava então.

Da curta e intensa relação com Freud, que poderia ter resultado numa interrupção de seu processo interior, Jung não só sobreviveu como saiu renovado e prosseguiu, sempre registrando criteriosamente o vasto e riquíssimo material de seus pacientes e refletindo sobre sonhos que às vezes datavam de décadas. O mesmo acaso permitiu-lhe construir sólida formação filosófica desde a juventude, que o ensinou como correlacionar e converter adequadamente no tempo e no contexto histórico cultural este manancial de informações.

Como um prelúdio a uma das grandes conquistas de sua vida - o conceito do “inconsciente coletivo” - vieram em seu auxílio sonhos reveladores e o estudo da mitologia e da alquimia, abrindo-lhe as portas do entendimento de grande parte dos delírios, visões de indivíduos dissociados (esquizofrênicos), até então inacessíveis ao tratamento clínico, e da alquimia, chegando assim Jung ao conceito do inconsciente coletivo.

Eis aí a marca do gênio.

BWC


Texto revisado por Cris


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Autor: Bruno W Calabria   
Psicoterapeuta Junguiano
E-mail: brunocalabria@hotmail.com
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Publicado em 02/09/2008
 

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