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Pais e filhos, uma relação de ingratidão e amor
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Pais e filhos, uma relação de ingratidão e amor

por Bernardino Nilton Nascimento - bn.nascimento@uol.com.br

A ingratidão é uma úlcera em nossa alma, que um dia há de desaparecer do planeta. A ingratidão, sob qualquer forma, expressa o verdadeiro sentimento de quem a carrega, produzindo incontrolável mal estar onde se apresenta.

O ingrato é aquele que retribui o bem com o mal, a generosidade com a avareza, a simpatia com a aversão, o acolhimento com a repulsa, a bondade com a soberba. É sempre um atormentado que espalha insatisfação. A ingratidão, além de detestável, mancha a moral dos filhos para com os pais. Ela se eleva a proporções extremas, por ser um alarmante ato de rebeldia contra a criação Divina.

O filho ingrato é cruel com o coração dos pais, incrédulo carrasco que não se comove com as doloridas lágrimas maternas, nem com as angústias penosas do sentimento paterno.

Com a desagregação da família, que se observa generalizada na atualidade, a ingratidão dos filhos torna-se responsável pela presença de várias feridas morais no afundado organismo social, cuja terapia se apresenta complexa e difícil.
Todavia, filhos há que receberem dos pais as profundas demonstrações e testemunhos de sacrifícios e carinho, aspirando a um clima de paz, de saúde moral e de equilíbrio, nutridos pelo amor.

Aos filhos, compete amar os pais, mesmo quando negligentes ou socialmente fora de moda, por que é do código Superior da Vida. O impositivo é honrar pai e mãe, sem ter vergonha do seu jeito e de sua aparência, muitas vezes cansada pelas noites mal dormidas e o choro escondido pela ingratidão.

Falar de ingratidão e amor entre filhos e pais, me faz lembrar com muito carinho do meu pai, que partiu para outra vida. Nunca caminhei com a ferida da ingratidão em minha alma. Meu pai ficou mais de cinco anos sem falar comigo, e logo depois abandonou minha mãe. Fiquei não apenas sem falar, mas sem vê-lo por mais de quinze anos. Tudo isso por que não segui a carreira militar, que ele tanto desejava. Prestei concurso para o Colégio Naval e passei. Cansado de tanto estudar, meu pai me presenteou com umas férias. Na volta era só fazer exames médicos e tudo estava como ele havia planejado.
Apreciando e ouvindo o mar, escutei minha vocação. Escrevi dizendo que não retornaria para os exames médicos e que não mais queria seguir a carreira militar. Foi um tiro em seu orgulho. Daí para frente tudo mudou: não tinha mais direitos, e tudo o que eu precisava tinha que conquistar com meus próprios esforços. Para piorar a situação, também fui acusado da separação dele com minha mãe. Na verdade, ele já estava com outra companheira, com quem tivera dois filhos, além dos três com a minha mãe. Com muita fé e confiança, parti para trabalhar como ajudante de pedreiro, depois de marceneiro, e isso tudo com quinze anos de idade. Por coincidência, fui estudar na Escola Técnica do Arsenal de Marinha, onde me formei em Técnico de Construção Naval.

Coisas do Divino: um navio ancorou no Arsenal para reparo e fui designado para fazer a vistoria e entregar ao Comandante a lista dos reparos que o navio necessitava. Fui conversar com o comandante, e lá estava meu pai. A emoção tomou conta dele e, claro, de mim também. Ele disse: ”Você fugiu de ser militar, mas não escapou de trabalhar com os militares”. Eu respondi: “Não tenho e nunca tive nada contra os militares, apenas gostaria de seguir a carreira civil e de me tornar um bom profissional na área da construção”.

Uma vez ele me chamou para almoçar e me pediu desculpas. Respondi que ele havia sido um bom pai e que agora faltava apenas sermos bons amigos. Fomos nos encontrando com mais regularidade e logo o elo estava se fechando. Até que um dia, já velho e aposentado, foi morar no Rio Grande Sul. Quem mais entrava em contato com ele, dentre todos das duas famílias, era eu. Ele acabou sendo abandonado pela segunda companheira e mantinha muitos atritos com os demais filhos. Senti a necessidade de sempre estar ligado a ele, e foi aí que, em um dos meus telefonemas, eu disse: “Pai, quase todo mundo te abandonou e você está aí só! Vem morar aqui no Rio. Eu vejo uma casa em Rio das Ostras ou em Macaé, perto da praia, do mar, que o Senhor tanto gosta, eu pago o aluguel. Ele me respondeu:” Acho que você tem razão, mas tenho algumas coisas para resolver por aqui e depois eu te dou a resposta “. Continuei:” Sabe, pai, você me fez crescer mais rápido, eu sempre fui otimista e trabalhador, consegui estudar, crescer materialmente e como pessoa, também foi muito importante para mim. Hoje tenho um filho adulto que me chama de amigo em vez de pai, e uma filha carinhosa, maravilhosa. Gostaria de compartilhar tudo isso com você. Venha morar mais perto. Eu te amo!” Sempre terminei minhas conversas com está frase: “EU TE AMO”. Ele sorriu, mandou beijos e abraços a todos. Alguns dias depois teve um derrame fulminante e faleceu! Eu havia dito as palavras que meu coração tinha pedido, e também as últimas que qualquer pessoa gostaria de ouvir.

Então, não perca tempo! Sempre que tiver uma chance, diga a seus pais que os ama. Você não sabe o conforto que seu coração terá se alguma coisa vier a acontecer: saber que seu último gesto foi de carinho e de amor, pois os últimos momentos são os mais lembrados quando partimos para a outra vida”.
Os meus irmãos choraram e sofreram muito com a dor do arrependimento, mas eu estava com o coração saudável pelo amor da gratidão, da compaixão, do perdão. O tempo cura doenças, mas não tira as cicatrizes da alma, e estas, só tem remédio no mundo espiritual.

É sempre bom parar, pensar, meditar e ouvir o coração, procurando saber ler o que Deus, com suas letras tortas, escreveu para cada um de nós. Saber compreender é saber lidar com o agora, se preocupar com o momento, dar importância ao tempo presente com toda atenção e amor. Os sonhos e os desejos são realizados com as trocas dos pensamentos, das palavras, dos gestos, das ações que realizamos no agora. Fé, sonhos e desejos, somados à certeza e compreensão de que tudo isso pode ser realizado. Não podemos ter ingratidão em nosso coração.

Por duas vezes fui Deus, criador, e sou grato ao Universo por isso. Agora sou o Sol, que de longe ilumina e torce pela vida dos meus filhos, sem interferir em seus dons, mas mostrando, com exemplos, o caminho do rio. Há pedras para ajudar os cantos da natureza e suas águas que não retornam. O que fica para trás, lá deve ficar.

Quem não pode ser o Deus criador, pode ser o Deus do amor, adotando uma criança. O Deus criador e o Deus do amor se transformam em um só Pai.

BNN

Texto revisado






por Bernardino Nilton Nascimento   
-Não seja um investigador de defeitos e, sim, um descobridor de virtudes.
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