Artigo de Flávio Bastos: Os filhos do vento - | Artigos do Clube
 
Os filhos do vento  
   

Os filhos do vento

Autor Flávio Bastos - flavio01bastos@gmail.com


"Ver é transpor as barreiras da carne".
Hatiss, o cigano.

Os ciganos têm um milênio de história, porém, há registros de que este povo exista há mais de quatro mil anos. Heródoto, historiador grego (484-420 a.C.), falava dos ciganos e os colocava como habitando as margens do rio Danúbio.

"Eles se movem como o sol e a lua. São nômades. Ou, antes, são como as ondas, estão em toda a parte. Chegam e partem rápido. Parecem o vento. Num momento estão aqui, no outro, sumiram. Numa lufada, deixam traços indeléveis de sua passagem no eco de sua música, no relinchar de seus cavalos, no sorriso alegre de suas mulheres. Não, não são o vento, são os filhos do vento!"

O texto acima faz parte de um poema escrito na Pérsia, 200 a 400 anos antes de Cristo. Um povo é chamado de "filhos do vento" e a ele se refere o autor anônimo como "o povo que veio do rio", numa alusão ao rio Sind, no norte da Índia, na região de Gujarat.

O certo, porém, é que a pátria do cigano é a sua língua, o romani, e seu continente a extensão da memória dos ancestrais. A história dos ciganos é repassada pela oralidade. A arte de contar história e fabular é valorizada e, muitas vezes, a narrativa assume uma versão fictícia. A origem dos ciganos, provávelmente a Índia, não é um elemento de preocupação para "los gitanos", para eles o ir e o vir é a possibilidade do encontro e não importa de onde e para onde.

Tradicionalmente, os ciganos levam vida nômade, deslocando-se em grupos de tamanhos diversos, compostos por um conjunto de núcleos familiares mais ou menos extensos, sob a liderança de um chefe vitalício escolhido.

A maioria dos ciganos, até poucas décadas atrás, ainda formava caravanas puxadas por cavalos; abrigavam-se em tendas, pedreiras e minas. Em fogueiras ao ar livre, cozinhavam seus frangos, ovos e vegetais. Viviam principalmente da criação e comércio de cavalos, do artesanato em metal, vime e madeira, e das artes divinatórias, como cartomancia e quiromancia. A música dos ciganos, executada em público apenas pelos homens, permanece muito popular e é uma atividade rendosa na Europa Central. As adivinhações têm terminologia própria e algumas vezes utilizam as cartas como acessórios. Através dos ciganos, o baralho (Tarot) foi difundido na Europa, chegando depois ao Brasil.

Na família, o membro central é a mãe, que exerce autoridade sobre os filhos e é dona do patrimônio. O mesmo sistema se aplica à tribo que tem uma mãe tribal, a "puri dai", guardiã do código moral. Os infratores são julgados por um júri de "condes". E, nos casos mais graves, a pena é o banimento da tribo. No entanto, alguns estudos dão nuances diferentes da organização social dos ciganos, possivelmente em razão da diversidade dos grupos estudados.

Os ciganos Calons nômades que migraram para o Brasil entre os séculos XVI e XVII, vieram principalmente da Península Ibérica - região compreendida entre a Espanha, Portugal e França. Por serem provenientes de regiões mais quentes da Europa, possuem características diferenciadas dos demais sub-grupos (Kalderasch, Matchuaia, Hoharane, etc), possuindo danças mais calorosas, dialeto diferenciado, roupas vaporosas, comida picante e atividades comerciais diversas. Além disso, diferenciam-se ainda no aspecto físico, possuindo tez com tonalidade mais morena e alguns traços indianos, daí o nome do grupo, Calon = moreno.

Segundo um texto extraído do livro "Lilá Romaí", de Míriam Stanescon, o simbolismo da roda na vida do cigano, representa o eterno movimento, a deusa da sorte. Por isso, os ciganos agarram todas as oportunidades que a vida oferece. O cigano preserva muito a sorte e acreditam que só chega ao topo da roda da sorte, aquele que persevera, e acima de tudo, o que agradece e cuida da sorte que Deus lhe deu. Para os ciganos, a roda possibilita a locomoção que realiza e propicia o sonho das viagens.

Uma linda mensagem da cigana Sarita, recebida por Kamai, retrata a alma, a vida e o sentimento de liberdade dos filhos do vento: "Durante toda a caminhada, mantivemo-nos vigilantes de nossos filhos. Dentre ao que nos é permitido, zelamos, defendemos, acolhemos, aconselhamos, ralhamos, acarinhamos e ensinamos. Alguns acompanharam nossas caravanas por prados, florestas, montanhas, lamaçais, durante a ventania, o sol escaldante dos desertos, a chuva e o bom tempo. Outros se cansaram, sentaram na beira do caminho até o último de nós passar, e retornaram à áspera caminhada a nos seguir".

E segue a mensagem: "A estrada da vida é árdua, as pedras do caminho machucam os pés e o turbilhão de emoções maculam o coração e, às vezes, deixam cicatrizes profundas na alma. Mas, por favor, filhos, não percam a fé, nem desistam da caminhada. Quem compartilha de nossa energia é forte como as rochas, ardente como o fogo, suave como a brisa e transparente como a água. Sejam livres como os pássaros que voam, mesmo que em seus pensamentos! Tenham a beleza e a sutileza da flor que desabrocha e perfuma. Não desistam do caminho a ser trilhado, para que nunca se afastem da nossa caravana. O tempo não existe e amanhã os pandeiros chocalharão, fitas coloridas se agitarão e, então, veremos a dança da vida e se fará festa. E nós, aqui, estaremos de braços abertos para recebê-los em espirais de amor! Que Deus olhe por todos nós!"

Conforme registra Luna (lunacigana.blogspot.com), "o horror do holocausto jamais será esquecido pelo povo cigano, quando mais de um milhão de ciganos, descendentes e pessoas relacionadas diretamente a eles, foram exterminados nos campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Determinados a promover uma limpeza étnica, os nazistas decidiram que os ciganos deveriam ser eliminados para que não se misturassem com a raça pura alemã. Muitos ciganos foram assassinados nas florestas, tentando fugir ou se esconder. O sadismo da perseguição étnica recomendava matar os adultos diante das crianças para que elas pudessem entender que suas vidas eram "inúteis" e "nocivas" ao resto".

Contudo, apesar de históricas perseguições, a alma cigana, ao superar preconceitos, permanece como um exemplar hino de liberdade a desafiar coloridos horizontes de vida...

Alma cigana, liberta-te
dos grilhões das conveniências
e alça vôo pelo espaço afora...
Vai onde te leva teu sonho de liberdade...
Vai... segue o vento...
Sobe no mais alto dos cumes
e ali te deixa ficar,
mas apenas por um momento.

O suficiente para absorver
a sensação de plenitude e de paz...
Depois, continua a tua jornada,
livre
pelos mares,
pelos ares,
pelo mundo...
Pára um momento
e ouve a música
suave, mas vibrante,
emanada de mil violinos...

Deixa-te envolver pelos acordes
e dança...
leve...
solta...
Deixa-te arrebatar num frenesi,
como se as notas fossem o próprio amor
tomando conta de ti.
Entrega-te
sem medo...
sem reserva...
sem culpa...
até a exaustão completa.

E na calada da noite,
serena e feliz,
chega-te sorrateira
e te deita
ao lado de teu amado
e adormece o sono dos inocentes.
E quando os raios de sol
vierem te aquecer,
desperta e segue:
livre!
Plena!
Absoluta!

"Alma cigana", autoria desconhecida.
Em homenagem ao 24 de maio, Dia Nacional do Povo Cigano.

Psicanalista Clínico e Interdimensional.
www.flaviobastos.com
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Autor: Flávio Bastos   
Flavio Bastos é criador intuitivo da Psicoterapia Interdimensional (PI) e psicanalista clínico. Outros cursos: Terapia Regressiva Evolutiva, Psicoterapia Reencarnacionista, Terapia Floral, Psicoterapia Holística, Parapsicologia, Capacitação em Dependência Química, Hipnose e Auto-hipnose e Dimensão Espiritual na Psicologia e Psicoterapia.
E-mail: flavio01bastos@gmail.com
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Publicado em 25/05/2008
 

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