Xamãs não ficam no baú! Escolhem suas identidadespor Jens Federico Weskott - jweskott@uol.com.br
Quem mais sabe de identidade são as crianças. Desde que nascem, os demais a cinzelam. No melhor dos casos, os pais as estimulam; o que as faz sentirem-se bem. Amigos e colegas, por vezes, são menos edificadores. Aliás, escultores não faltam em uma bagagem completa de aspectos inerentes como família, gênero, tipo físico, raça, religião, rico/pobre, nacionalidade. Bem ou mal, nossa identidade marca nosso relacionamento com o mundo. Define nosso lugar, delimita nosso espaço. Nos dá substância, significado. Uma âncora para nossa segurança. Propõe roteiros para agir. Molda as expectativas a nosso respeito. Deixa-nos confortáveis ou inseguros. Ao definir-nos a nós mesmos, permitimos que os demais nos definam. Costumamos agir conforme nosso entendimento. Caso contrário, o risco é perder identidade, ficar fora da zona de conforto.
O que nos dá estrutura para viver nossas vidas, também nos aprisiona num baú. Ali não se cresce. Quando sei quem sou, sei quem não sou. Tal falta de incerteza deixa o subconsciente mole: libera o eu básico dos Kahunas de propor alternativas, fora dos padrões ‘aceitáveis’. Eus básicos apresentam o que se espera deles. Apenas mudando nossa definição de nós mesmos, nossas crenças de quem somos, podemos virar alguém diferente. Essa é a essência: sair do baú e mudar de identidade.
Não se trata de minimizar problemas. Escapar do baú pode ser terrível. Quebrar a própria identidade, deixar o país, a família, a ocupação, desorienta. Requer força. Antes, até, alguns preferem ser mortos. Não é café pequeno.
Identidades também fixam disfunções, fazem-nas inquestionáveis. Melhor aceitar-se com falhas e tudo mais que questionar convicções. O medo de perder identidade, de não saber mais quem se é, cala fundo. Conviver com anomalias, mais tranqüilo. ‘Sou gordo/a’ é uma identidade disfuncional. Implora compreensão. Precisamos de uma identidade de algum tipo, mesmo que penosa? Muitas crenças limitantes vêm de identidades. ‘Sinto-me limitado nisso/naquilo’: a razão fornece interpretações, não como livrar-se delas.
Isso pode mudar. Se os xamãs conseguem, nós podemos também.
Começa a partir do modo de falar. Dizer ‘sou vendedor‘ é diferente de ‘às vezes faço vendas’. Passa-se do subjetivo ao objetivo. Parece trivial, mas é crucial. Dizer-se vendedor é definir-se. Sem alternativa. Exemplo inocente, verdade. Quando nós identificamos com algo subjetivo só podemos vê-lo de dentro; é parte de nossa interioridade. Porém, ao dizer ‘não sou assim - isso é apenas é parte da minha experiência objetiva’, muda o foco. Nós distanciamos de nós mesmos e podemos mudar. O depoimento traz implícita a possibilidade de mudança.
Declarar posses revela identidades: ‘sou dono desta casa’ me define. Assim como roupas, carros, obras de arte. Faz parte do prazer e pretende influenciar os demais no modo de ver-nos. Contam algo sobre nós. Posses antigas redobram esse prazer. Denotam consistência, algo permanente nestes tempos mutantes. Que seria de nós se perdêssemos tudo? Surpresa, há também gente feliz. Exultantes com a liberdade advinda. Viram que não eram suas posses.
Outros penam por não conseguir mudar. Tendo posses, não as deixam ir. Tornaram-se partes da sua identidade. Quando nós identificamos com uma tribo, acontece o quê? Seríamos o quê se não pertencêssemos a um grupo? Algo só para lobos solitários; medo para os demais. De não sermos amados; rejeitados. Deve existir um meio-termo.
Fato: cada vez que assumimos uma identidade, ficamos num baú. Até os xamãs? Que possuem capacidades de desenvolver a mente humana, eficácia nos tratamentos de saúde e cura? Que influenciam o mundo exterior, a própria vida? Aliás, vem daí seu senso de poder. Poder acessar um nível superior. Mudam, de modo consciente, sua vida e seu mundo. Para nós, praticar mudar de identidade ajuda a perder nossas identidades inconscientes. Que foram úteis em seu tempo, mas continuam contendo limitações. E rever as conscientes.
Então, como mudar de identidade? Há caminhos. Percebê-la como não fixa, é o começo. Saber que pode ser ampliada. Ou reduzida se for preciso. Fixas, por vezes, são as convicções. De ter, apenas, um eu essencial. Será? Olhando a mente - ao dividir os hemisférios -, cientistas afirmam haver vários centros de ‘eus’. O eu dominante é responsável por nosso senso de identidade. Todos nós, claro, somos bem diferentes. Mas temos, sim, a liberdade de definir quem queremos ser, onde desejamos focar nossa atenção. Como avaliamos nossas experiências? E se, em vez de dolorosas, dizemos que foram sensações intensas? Ao escolher como queremos ser, conseguimos mudar nossas experiências.
E mais, nossa identidade atual é eficaz? Saber como ela realmente é não é fácil. Um conglomerado de hábitos, convicções e tantas coisas mais. Um baú. Tão árduo de definir como de explicar água a peixe. Já a intenção de destampar o baú ajuda bastante. A disposição de ver se há modo melhor é poderosa. Existem mais maneiras de conceber-nos a nós mesmos. Visto que não há limites, nem para os xamãs nem para nós, qual seria o jeito construtivo de ver-nos e de ver os demais? Posso mudar minha autopercepção para refletir isso? Acho que sim.
Outra via é praticar mudar nossa identidade a fim de nós deixar mais saudáveis, satisfeitos e felizes. Isso de expandir nossa dimensão é divertido e também esclarecedor. Libera a imaginação e abre novas perspectivas inusitadas. É esse o reino em que o xamã resulta ser mais eficaz. E nós também. De fazer uso de nossa influência a fim de mudar o mundo exterior. A nosso favor. Identificar tormentas por vir, rever sendas, expandir saúde e amor.
Repensar identidades é produtivo. É saudável e prazeroso. Podemos explorar identidades diferentes e outros modos de ser. Abrem insights de nossos desejos e dos medos que os acompanham. Mostram o que funciona em nossas vidas. Insatisfeito? Tente fazer esse exercício de tempos em tempos. Veja quanto prazer, quanto pesar. Como adicionar contentamento? Talvez haja coisas a deixar de lado, criar espaço para boas novas. Ou simplesmente ficar quieto sem identidade qualquer. Ninguém consegue viver sem. Então? Viva nossa liberdade de escolher!
Condensado de Stewart Blackburn para Aloha International, Havaí
Texto revisado por: Cris
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