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Independência, morte ou interdependência?
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Independência, morte ou interdependência?

por Priscila de Faria Gaspar - priscilagaspar@terra.com.br

Aos meus oito anos de idade, então na 2ª série do antigo 1º grau, vim a saber que D. Pedro I, num ato de bravura, arrancara os laços azul e branco de seu chapéu, bradando o famoso grito “Independência ou Morte”, às margens do Riacho do Ipiranga. Com a pouca lógica de uma criança dessa idade, questionei o ato narrado pela professora, considerando-o muito simples para dar ao Brasil a condição de independente.

Era 1972, ano marcado pelas comemorações do sesquicentenário da independência, em pleno regime militar. Os mais jovens talvez não compreendam, mas quem viveu nessa época sabe que, em uma escola estadual a professora não poderia dar maiores explicações sobre o processo de reconhecimento da independência. Tampouco nós, crianças, compreenderíamos que a passagem narrada possuía o significado de um ato simbólico.

Dez anos após, estava eu, pela primeira vez, a caminho de exercer meu direito de cidadã: o voto. Meu candidato ao governo do estado, Franco Montoro, era do partido de oposição. Assim, escolhendo-o eu também fazia oposição à proposta da família. Ao afirmar perante meu pai em quem eu votaria, senti que era a minha independência! Já tinha 18 anos, cursava o primeiro ano da faculdade e não morava mais com meus pais. Podia votar em quem bem quisesse! O voto era o símbolo de minha independência! Mal sabia eu o quanto ainda viria a depender financeiramente de meu pai e emocionalmente da família toda... Mal sabia eu que nenhum ser humano pode viver sem depender de outrem!

Assim como o Brasil precisou ter sua independência reconhecida por outras nações, tive que ter a minha reconhecida por outros indivíduos e por instituições da sociedade. Emprego, conta no banco, cartão de crédito... De certa forma algumas instituições me reconheciam como tal, ainda que não soubessem que, a qualquer momento, eu precisaria pedir auxílio a meu pai. Assim como o Brasil precisava recorrer aos cofres do FMI...

Inicialmente, ao ver frustrado meu desejo de ser independente, minha auto-estima baixou. Sentia-me sem valor, como se, ao precisar de auxílio, não tivesse valor próprio. Doía-me também a solidão. Nem tanto pelo fato de estar só, mas porque resistia à idéia de que precisava de pessoas a meu redor! O orgulho impedia-me de ver que, como todos os seres humanos, eu possuía fraquezas, carências e limitações...

Muitos anos se passaram. Aprendi a aceitar minha condição de “limitada” e, consequentemente, passei a aceitar auxílio com humildade. Já não doía tanto perceber que não era independente como pensara no passado. A independência era apenas uma ilusão! À medida que me abri para receber, aprendi também a doar. Doar compreensão, carinho, apoio e até dinheiro! Percebi, então, que os indivíduos na humanidade, assim como as nações na Terra, são interdependentes.

O estudo dos ecossistemas e as relações entre os seres vivos mostra que, em nosso planeta, somos todos interdependentes. Seja uma bactéria ou uma floresta, o princípio é o mesmo. A essência da vida biológica está na capacidade de trocar com o meio, formando as cadeias e as imensas teias alimentares em que os fatores ambientais são compartilhados e reciclados, enquanto a energia flui num movimento constante. De forma análoga, a essência da vida na sociedade humana é a troca de sentimentos e informações; a essência da vida de uma nação está em sua capacidade de trocar conhecimento, matéria prima, tecnologia...

Em um mundo globalizado, as nações vivem de forma interdependente e a tendência daqui para a frente é que as fronteiras se diluam cada vez mais. O mesmo pode ocorrer com as pessoas. Talvez possamos nos ver como interdependentes, formando uma imensa corrente de ajuda mútua: aceitando e doando auxílio. Assim, longe de querer tirar o mérito da máxima histórica, sugiro: em vez de optar entre independência ou morte, devemos escolher a interdependência que é a vida!

Priscila de Faria Gaspar
Psicanalista com abordagem psicossomática.
Atendimento à Rua Domingos Vieira, 343, sala 1103. Santa Efigênia - Belo Horizonte.
Casos especiais: atendimento on line por e-mail, msn ou skype.
(31)3415-8269 e 9312-8269
priscilagaspar@terra.com.br

Texto revisado por Cris


por Priscila de Faria Gaspar   
Priscila de Faria Gaspar é Psicanalista, Terapeuta de Regressão e Terapeuta de Casais, com especialização em Sexualidade Humana. Atende em psicoterapia individual e de casal, à Rua Domingos Vieira, 343, sala 1103 - Santa Efigênia - Belo Horizonte - MG Contato: (31)9312-8269 priscilagaspar@terra.com.br
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E-mail: priscilagaspar@terra.com.br
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