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O Medo e a Ausência do Medo

O Medo e a Ausência do Medo

Para viver a aus√™ncia do medo, √© preciso viver o medo. A ess√™ncia da covardia √© n√£o reconhecer a realidade do medo. O medo pode assumir muitas formas. De fato, sabemos que n√£o podemos viver para sempre. Sabemos que vamos morrer, por isso temos medo. Ficamos petrificados com a morte. Em outro n√≠vel, ficamos com medo de n√£o conseguir fazer frente √†s exig√™ncias que o mundo nos faz. Esse medo se manifesta como um sentimento de inadequa√ß√£o. Sentimos que a carga da nossa exist√™ncia √© muito pesada e ao nos confrontarmos com o resto do mundo ela parece mais pesada ainda. Ent√£o h√° um medo inesperado, ou p√Ęnico, que surge quando novas situa√ß√Ķes acontecem de repente em nossa vida. Quando sentimos que n√£o podemos lidar com elas, damos um pulo ou nos contra√≠mos. √Äs vezes o medo se manifesta como uma inquieta√ß√£o: rabiscamos numa folha de papel, brincamos com os dedos, nos mexemos impacientemente na cadeira. Sentimos que temos que nos movimentar o tempo todo, como os componentes do motor de um carro. Os pist√Ķes sobem e descem, sobem e descem. Enquanto est√£o se movendo, nos sentimos seguros, mas por outro lado temos medo de morrer enquanto os pist√Ķes se mexem.

S√£o in√ļmeras as estrat√©gias que costumamos usar para esquecer o medo. Algumas pessoas tomam tranq√ľilizantes, outras fazem ioga. Algumas pessoas assistem √† televis√£o, ou l√™em uma revista ou v√£o ao bar e tomam uma cerveja. Do ponto de vista do covarde, o t√©dio deveria ser evitado, por que quando estamos entediados come√ßamos a ficar ansiosos. Estamos mais perto do medo. A divers√£o deveria ser estimulada e qualquer pensamento sobre a morte evitado. Ent√£o a covardia est√° tentando viver nossas vidas como se a morte n√£o existisse. Houve per√≠odos na hist√≥ria em que muitas pessoas procuraram a po√ß√£o da longa vida. Se tal coisa existisse, a maior parte das pessoas a achariam horr√≠vel. Se tivessem que viver neste mundo por milhares de anos sem morrer, provavelmente iriam se suicidar muito antes de completar o seu mil√©simo anivers√°rio. Mesmo se voc√™ pudesse viver para sempre, seria incapaz de evitar a realidade da morte e do sofrimento ao seu redor.

√Č preciso admitir que o medo existe. Temos de perceber o medo e nos reconciliarmos com ele. Devemos observar como nos movemos, como conversamos, como nos comportamos, como roemos as unhas, como, √†s vezes, colocamos nossas m√£os nos bolsos sem necessidade. Ent√£o descobriremos como o medo pode ser manifestado na forma de inquieta√ß√£o. Devemos enfrentar o fato de que o medo ronda nossa vida, sempre, em tudo o que fazemos.

Por outro lado, admitir o medo não é motivo para a depressão ou desencorajamento.
Se temos esse medo, temos também capacidade de sentir a ausência do medo.
A verdadeira ausência do medo não é a supressão do medo, mas sim o ato de ir além dele, superá-lo.
Essa superação começa pelo exame do nosso medo: nossa ansiedade, nervosismo, preocupação, e inquietação. Se olharmos para nosso medo, se olharmos por baixo da sua aparência, a primeira coisa que encontramos é tristeza, mais que o nervosismo. O nervosismo está rodando como uma manivela, vibrando, o tempo todo.
Quando diminuímos a velocidade, quando relaxamos em relação ao medo, encontramos a tristeza, que é calma e gentil. A tristeza machuca você no coração, e o seu corpo produz uma lágrima.
Antes de chorar, h√° um sentimento em seu peito, e, depois disso, voc√™ produz l√°grimas em seus olhos. Voc√™ est√° a ponto de criar a chuva ou uma cachoeira em seus olhos e voc√™ se sente triste e sozinho e, talvez, rom√Ęntico ao mesmo tempo.

Este é o primeiro indício da ausência do medo, o primeiro sinal da verdadeira atividade do guerreiro.
Você pode pensar que, quando sentir a ausência do medo, você ouvirá a abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven, ou verá uma grande explosão no céu, mas não é assim que acontece. Na tradição de Shambhala, para descobrir a ausência do medo, é preciso trabalhar com a suavidade do coração.

O nascimento do guerreiro √© como o nascimento dos primeiros chifres de uma rena. A princ√≠pio, os chifres s√£o muito suaves e com uma consist√™ncia semelhante √† da borracha, e exibem alguns fios de cabelo em sua superf√≠cie. Ainda n√£o s√£o propriamente chifres. Ent√£o, √† medida que a rena cresce, os chifres se fortalecem, se desenvolvem. A aus√™ncia do medo, no come√ßo, √© como aqueles chifres ainda por se formar. Eles se parecem com chifres, mas voc√™ n√£o pode lutar muito bem com eles. Quando os primeiros chifres de uma rena crescem, ela n√£o sabe o que fazer com eles. A rena se sente desajeitada de ter aquelas coisas moles e granulosas na cabe√ßa. Mas ent√£o come√ßa a perceber que ela deve ter chifres: aqueles chifres algo natural de uma rena. Da mesma forma, quando um ser humano come√ßa a abrir seu cora√ß√£o para buscar a supera√ß√£o do medo, ele pode se sentir extremamente desajeitado e cheio de d√ļvidas sobre como se relacionar com esse tipo de aus√™ncia do medo. Mas, ent√£o, √† medida que sente cada vez mais essa tristeza, voc√™ percebe que seres humanos precisam ser ternos e francos. Ent√£o n√£o precisa mais se sentir t√≠mido ou embara√ßado em ser gentil. De fato, sua suavidade come√ßa a se tornar envolvente. Voc√™ vai querer se abrir para as pessoas e se comunicar com elas.

Quando a ternura evolui nessa dire√ß√£o, voc√™ finalmente tem condi√ß√Ķes de apreciar o mundo ao seu redor. A sua percep√ß√£o das coisas se torna algo muito interessante.
Você já está tão terno e receptivo que não pode deixar de se abrir ao que acontece ao seu redor. Quando você vê o vermelho, o verde, o amarelo ou o preto, você reage a essas cores do fundo do seu coração. Quando vê alguém chorando ou rindo, ou assustado, você também responde da mesma forma. Nesse ponto, seu nível inicial de ausência do medo está se desenvolvendo. Quando você começa a sentir-se confortável sendo uma pessoa gentil e decente, seus chifres de rena começam a se tornar chifres verdadeiros.
As situa√ß√Ķes se tornam muito reais, bem reais, e por outro lado, bem comuns. O medo se transforma em aus√™ncia de medo de uma forma natural, muito simples, e bem direta.

Este texto, escrito pelo mestre budista Chögyam Trungpa, é um convite para encararmos os nossos medos de uma forma serena e suave. E crescer com eles.
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Publicado em: 29/8/2014
     
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