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O silêncio que mata!  
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O silêncio que mata!

por Rosemeire Zago


Qual o preço que se paga por ter sido abusada na infância?

Nesse mês estamos no movimento do Setembro Amarelo, uma campanha de conscientização mundial sobre a prevenção do suicídio. E não posso deixar de expressar minha indignação cada vez que recebo no consultório pessoas que foram vítimas de abuso quando crianças e/ou adolescentes, e não encontraram até hoje, adultas, quem valide e leve a sério suas dores, principalmente quando se fala em abuso sexual.

Falar de suicídio é ainda um tabu, assim como falar de morte, ou qualquer situação que cause dor e desconforto. Sabe o que é sobreviver a um abuso? Mas as pessoas fogem do assunto e, por medo ou desconhecimento, não percebem os sinais quando uma pessoa próxima está pensando em tirar sua própria vida, mesmo que seja uma criança indefesa... sua filha, ou quem sabe, você tenha passado por isso quando criança e ninguém percebeu. Lamento.

Os motivos que fazem uma pessoa pensar em tirar sua vida são os mais variados, mas hoje quero falar do que mais recebo no consultório, porque apesar de toda mobilização sobre o tema nesse mês, não encontrei por parte oficial quem aborde a relação entre suicídio e abuso infantil, em especial o abuso sexual.

Todas as meninas que atendi até hoje e foram vítimas desse tipo de abuso, todas, já pensaram em suicídio uma ou mais vezes. Elas querem tirar a vida? Penso que não, elas não querem a morte, o que querem é se libertar do sofrimento e da dor. Dor causada pela vergonha, impotência, humilhação, nojo, tristeza, e por estarem acima de tudo, sozinhas em seu silêncio e dores.

Querem saber mais? Todas essas mesmas meninas que sofreram em silêncio, quando criaram muita coragem, e conseguiram contar, praticamente todas, continuaram sozinhas. Isso quer dizer que mães, pais, irmãos, tios, e até mesmo profissionais da área, que se espera terem conhecimento das sequelas e possam acolher essas vítimas, não o fazem, e assim todos permanecem omissos. E a omissão, para quem não sabe, causa tantas sequelas quanto o abuso em si. E elas continuam sozinhas.

Como suportar tanta dor dentro dessa solidão imposta? Imposta sim, porque não tem ninguém que entenda, acolha, valide e ressignifique essas dores. Por isso que divulgo tanto o trabalho da Alice Miller, que foi uma defensora da importância de rompermos com o silêncio do sofrimento da infância... por que esse silêncio, simplesmente mata. Mata a esperança de voltar a confiar em outra pessoa, mata o desejo de cuidar de si, mata a vontade de ser mãe, mata o desejo de continuar vivendo.

É importante para quem sofreu qualquer tipo de abuso, que encontre um lugar para expressar-se, que suas dores sejam levadas a sério e respeitadas. Não se pode continuar a querer resolver problemas relacionados ao abuso, evitando falar sobre isso em sessões de terapias, limitando-se apenas ouvir, sem conhecimento, ou sem ensinar ferramentas para lidar com tudo que emerge quando a pessoa resolve buscar um profissional.

Uma terapia eficaz deve ajudar os pacientes a tomar consciência da história dolorosa da infância reprimida através do despertar de emoções e sonhos, para que não precisem mais temer os perigos que os ameaçavam quando crianças, e que não precisem expressar suas dores pelos sintomas físicos, que quase sempre se fazem presentes.

Confrontar emocionalmente com a verdade da infância e abandonar a negação do sofrimento é o primeiro passo para quem viveu qualquer tipo de abuso infantil. Assim como, desenvolver a empatia para a criança que fomos e compreender a origem dos medos, da culpa, para que possa efetivamente se libertar das ameaças ouvidas tão cedo na vida por pessoas que deveriam ter nos cuidado. Sim, você que passou por tudo isso e sobreviveu, sabe que pode aprender a dar à sua criança e a si mesma o que mais precisa e que nunca recebeu dos pais: amor e respeito. Para isso, procure um profissional que seja realmente competente para ouvir e validar sua história.



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  O silêncio que mata! - Parte 2


Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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