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Como me separei do cigarro  
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Como me separei do cigarro

por Flávio Gikovate


Quando escrevi Cigarro, um Adeus Possível, fazia uns três meses que tinha parado de fumar. Estava orgulhoso. Estava deprimido. De vez em quando, me atacava aquela vontade lancinante de acender um cigarro. Não pela dependência física, que em poucos dias se resolveu. A dependência dolorosa do cigarro acontece porque ele toca em fatos de enorme densidade psicológica. Isso explica porque pessoas inteligentes, determinadas, metódicas e disciplinadas não conseguem deixar de fumar. Por trás dessa incapacidade está um tema profundo: o desamparo da condição humana.

O desamparo se manifesta, desde a primeira infância, na boca. Eu, por exemplo, sempre chupei balinha, mesmo quando fumava. Há uma quantidade imensa de pessoas "viciadas" em chiclete. Chiclete só não vira vício de verdade porque não tem substâncias químicas que causem dependência física. Chiclete e bala aliviam a inquietação oral que nos acompanha a vida inteira. É através da boca que, desde pequenos, procuramos uma sensação de aconchego. Começamos sugando o seio. Em seguida vem o primeiro vício, a chupeta. Sai a teta, entra uma borracha. Sai a borracha, começamos a chupar o dedo ou a roer as unhas.

Sou contra o cigarro porque faz mal à saúde. Não tenho nada contra chupeta, chiclete ou bala - maneiras de atenuar o desamparo, sensação de que nenhum ser humano está livre.

Compreendendo a profundidade dessa questão, não subestimando o tamanho da dificuldade, montando uma estratégia lenta e progressiva, calma e ponderada é que, um dia, o viciado pode largar o maldito cilindrinho. Quando tentei parar de fumar faz uns 10 anos, sofri muito. Ainda não estava maduro. Desta vez, estava mais preparado. Tinha entendido melhor o motivo da intromissão do cigarro na vida da gente, me sentia mais seguro, um pouco tocado com a noção que os americanos introduziram de que o fumante é um cidadão de segunda classe, e incomodadíssimo com a dependência. Achei que teria condições de não substituir o cigarro, sobretudo por comida. Porque na última tentativa engordei barbaramente. Mas desta vez parei, fiz exercícios, não engordei nada.

Há uns dias, um amigo esqueceu um maço de Marlboro em casa. Essa era uma das marcas famosas na minha adolescência. Fumar cigarro americano, ser um pouco Humphrey Bogart. Aquele rótulo vermelho bateu em mim, me deu uma nostalgia funda de certo charme, de me imaginar num bar conversando, fumando, bebendo... Nem sei se tudo isso tem charme, mas foi o que nos ensinaram. É essa atmosfera que conta. Não é o pulmão da gente que anseia pela fumacinha.

Cigarro prende porque a gente se sente especial quando fuma - pelo menos no começo - e porque ele vira um companheiro, passa a fazer parte da identidade da gente. Um cigarro na mão ajuda a abordar uma moça numa festa. Para dar um telefonema difícil, certas pessoas acendem um cigarro. É por isso que o caminho para um controle progressivo sobre o vício consiste em quebrar esses hábitos.

Anos depois, as pessoas me perguntam como me sinto. Mais ou menos como um gordo que emagreceu. O gordo acha que, quando emagrecer, a vida vai lhe sorrir para sempre, que todos seus problemas estarão resolvidos. Aí, ele descobre que a vida continua tão complicada como antes, só que agora ele é magro.

Tenho os mesmos problemas que quando fumava. A vida é difícil, as incertezas são dolorosas, o desamparo é uma realidade inegável. Continuo frustradíssimo por não ser o Humphrey Bogart. Sou, agora, um desamparado consciente de que aquela vontade de fumar nascia da tentativa desesperada de procurar aconchego em alguma coisa. Rodar o dia inteiro em torno de cigarros que aplaquem minha vontade de fumar não me distrai mais. A vontade de fumar criava uma ansiedade que servia para mascarar essa outra ansiedade profunda e autêntica, comum a todo ser humano.

A vantagem é que posso peitar as questões intrincadas da condição humana sem confundi-las com vontade de fumar. Estou muito satisfeito com essa vitória difícil contra a dependência. O antigo orgulho de sentir-me "diferente" com um cigarro na mão, que me levou ao vício, transformou-se no orgulho de não fumar. Gosto muito mais de mim assim.

Para quem pensa seriamente em largar o cigarro, aqui vai o resumo de sete sugestões, algumas inspiradas nos Passos dos Alcoólicos Anônimos:

1- Prepare-se. A batalha é árdua
Parar de fumar é uma vitória tão extraordinária quanto uma medalha de ouro em uma Olimpíada. Preparar-se implica entrar em contato com as mesmas sensações de desamparo que nos levaram a refugiar-nos no cigarro. É preciso entendê-las em profundidade, para não cair em projetos imediatistas: uma mudança desse porte exige tempo.

2- Assuma: você é viciado
Admitir um vício não é propriamente um fortificante para a auto-imagem de ninguém. Não admiti-lo, porém, minimiza o problema e para o viciado não há meio termo. Ele só se livra da droga suprimindo-a por completo. Em tempo: muitas pessoas "normais" e "socialmente equilibradas" tornam-se dependentes do cigarro e continuam sendo seres humanos dignos. Pense nisso se admitir sua dependência o deixar deprimido.

3- Invista na saúde
Pessoas preocupadas com a saúde e a aparência desenvolvem aversão a tudo quanto as prejudica nesse sentido. Exercícios, dieta adequada, têm a ver com a busca de uma vida longa e de boa qualidade. Essa maneira de ser implica um constante esforço de construção e fortalece a auto-estima. Aí estão dois ótimos alicerces para os sacrifícios necessários ao seu projeto.

4- Altere hábitos ligados ao cigarro
Em outras palavras, crie seus próprios obstáculos ao ato de fumar. Não fume mais à noite, antes do café ou depois das refeições. Este item é o mais difícil e também o mais importante e pode ser combinado com o item acima. Exemplo: deixe de fumar no período em que pratica exercícios. Uma vantagem adicional será que o prazer (físico e psíquico) do exercício diminuirá sua vontade de fumar. Quebrar hábitos mostra como é forte e doída a vontade de fumar, ou seja, dá a verdadeira dimensão do desafio. Mas também vai trazendo à tona sua capacidade de agir contra a dependência.

- Desenvolva um fascínio pela independência
Atente para o quanto é humilhante a situação do viciado. Quanto mais se fuma, maior a vontade. Fuma-se apenas para afogar a dor de não fumar, sem maiores prazeres adicionais, já que, pelo menos do ponto de vista físico, as sensações não existem ou são desagradáveis. Tomar consciência dessas limitações gera a tendência inversa: cresce a vontade de entrar para o universo das pessoas livres e independentes.

6- Pare somente no momento oportuno
A sensação interior de que está pronto para a empreitada deve casar-se com as condições objetivas para que dê certo. Quando achar que é hora, parar ao mesmo tempo que alguém de sua família ou um colega de trabalho, ajuda. Qualquer truque - como aproveitar uma gripe - vale, sobretudo nos primeiros dias. Melhor ainda se, uma vez ultrapassado o pior, você se conceder uns 15 dias de férias fazendo exercícios e em companhia agradável.

7- Tenha em mente que a experiência é sofrida
Mesmo depois de cumprir as etapas anteriores, um vício é uma ligação tão profunda que romper com ele desperta todo tipo de dores e questionamentos. Mas como não há dor que dure para sempre, em pouco tempo a alegria da vitória estará amenizando a tristeza da perda.

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Flávio Gikovate é médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil.
Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo.
Confira o programa "No Divã do Gikovate" que vai ao ar todos os domingos das 21h às 22h na Rádio CBN (Brasil), respondendo questões formuladas pelo telefone e por e-mail gikovate@cbn.com.br
Email: instituto@flaviogikovate.com.br
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