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O que te machucou na infância?  
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O que te machucou na infância?

por Rosemeire Zago


"Pois prefiro ter crises e agradar-lhe
a desagradar-lhe e não as ter"
Marcel Proust - Cartas à mãe


Nem sempre temos consciência de que fomos muito machucados durante a infância, pois aprendemos desde cedo que devíamos "engolir nosso choro", reprimir o que sentíamos, não falar nunca sobre o quanto sofremos em silêncio, mesmo que tenhamos suportado os piores abusos. E isso se perpetua na vida adulta.

Do mesmo modo que aprendemos a reprimir tudo que sentimos, também aprendemos a ter medo, e esse mesmo medo é o que nos impede de entrar em contato com nosso passado, com nossa verdadeira história e suas consequências, ainda que tenhamos sintomas que procuram nos fazer acordar para nossa verdade. O que você sabe de sua própria história? Já relacionou seus sintomas com o que sentiu e passou nos primeiros anos de vida? Ou você ainda continua esperando pelo amor que não recebeu quando mais precisou?

As pessoas continuam a acreditar que as dores sentidas no passado não devem ser expressas. Mas já aprendemos que continuar reprimindo nossas dores, pode nos fazer adoecer, apesar que a frase acima é seguida por muitas pessoas, ainda que inconscientemente. Sim, muitos preferem ficar doentes, agradar a seus pais, do que enfrentar a verdade que está armazenada em seu corpo, que procura se mostrar pelos sintomas.

O conflito entre aquilo que sentimos e sabemos de fato, porque nosso corpo registrou, e aquilo que demonstramos para satisfazer às normas morais que, muito cedo, interiorizamos, é a causa de muitos sintomas. O corpo é guardião de nossa verdade, porque carrega em si a experiência de toda nossa vida. Ele nos obriga, com a ajuda dos sintomas, a admitir essa verdade, de modo que possamos nos comunicar com a criança um dia maltratada e humilhada que vive em nós. Se você perguntar para a criança que foi um dia: "o que você está sentindo?" O que ouviria como resposta? Pausa para ouvir...

Alice Miller em seus livros nos diz que aprendemos muito cedo a obedecer e seguir o quarto mandamento: "honrar pai e mãe". E diz ainda que o corpo não entende, de modo algum, essa moral, e adoecemos, severa e, progressivamente.

"Não posso me obrigar a amar ou mesmo honrar meus pais quando meu corpo nega-me isso por razões que lhe são bem conhecidas". Pessoas que foram amadas quando crianças amarão seus pais, sem precisar obedecer a um mandamento. E a obediência a um mandamento nunca conseguirá gerar amor, apenas a ilusão que ele exista.

Como você se sentiria de ouvisse: "você não precisa honrar seu pai. Pessoas que o prejudicaram não precisam ser amadas por você, mesmo sendo seus pais. Você irá pagar com sintomas por esse respeito imposto. Você tem a possibilidade de se libertar"? Para algumas pessoas isso pode ser considerado um absurdo, mas só quem vive as sequelas dos abusos sofridos é que sabe o que sente.

Mas continuamos a ignorar nossa verdade, com a ajuda de médicos, e infelizmente, de alguns psicólogos, que evitam toda e qualquer questão relacionada com nossos primeiros anos de vida, ainda que nossos sintomas estejam gritando por compreensão e validação.

O corpo procura durante toda vida o alimento de que tanto necessitou na infância e não recebeu. Pode procurar na comida, drogas, compras, sexo, enfim, busca o alimento que lhe foi negado na infância. Ele -corpo-- precisa, incondicionalmente, da verdade, e que nós mesmos acabamos por negar. Qual alimento você tem buscado? Qual a verdade que seu corpo tenta lhe mostrar e que você insiste em evitar com medo da dor que isso pode provocar? Já pensou que essa dor pode estar reprimida e que negá-la não a faz desaparecer?

Uma ferida não consegue cicatrizar enquanto continua encoberta e negada. A criança não pode sobreviver a verdade, portanto, reprime. Quando criança, fugimos da realidade como forma de defesa, mas quando adultos recuperamos o direito de não fugir mais.

Quando criança, toda vez que chorava ou demonstrava o que sentia, você apanhava, ou era punido de alguma forma. Assim, aprendeu logo cedo a reprimir o que sentia, e vai passar a vida toda negando e, adoecendo? Mas nem todos conseguem fazer essa associação. Ninguém quer saber sobre a influência da infância na vida futura. Às vezes é mais fácil (fácil nem sempre significa saudável) continuar buscando alimentos e relações tóxicas, como forma de confirmar que não merece receber amor, ou para ser punido por ter sido tão mau. Afinal, uma criança maltratada não consegue perceber seu real valor, e essa percepção pode se estender por toda a vida.

Quanto mais você era agredido, mais idealizava seus pais, acreditando ser o único responsável pelo abuso que era vítima. Essa idealização deve ser destruída. Muitos adultos continuam a idealizar seus pais, esperando por um amor que nunca virá, desejando que sejam um ideal que gostaria, mas muitas vezes, longe, muito longe do real. E isso gera muito sofrimento.

Você não precisa se afastar de seus pais por seus atos cruéis, se assim não quiser, mas deve enxergá-los como foram na realidade, com suas limitações, como lidaram com você quando era criança, percebendo que isso gerou muitas sequelas. Enquanto as mensagens do seu corpo forem ignoradas, novas mensagens virão até serem ouvidas. Por isso busque a real origem de seus sintomas, tendo a consciência que remédio algum o fará por você.



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Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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