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Sem emoção, nada avança  
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Sem emoção, nada avança

por Bel Cesar


As emoções, com seus altos e baixos, dão cor à vida.
David Fontana


A palavra emoção vem do latim emovere que significa abalar, sacudir, deslocar. Esta, por sua vez, deriva de movi, que significa literalmente: pôr em movimento, mover. Logo, emoção, antes de mais nada, significa movimento. Ou ainda, energia em movimento. Portanto, não devemos perder de vista o fato de que sem emoção, nada avança.

Na psicologia ocidental, o termo “emoção” ainda está em discussão. “Enquanto na linguagem quotidiana os conceitos são compreensíveis, na linguagem da ciência reina confusão”.

Uma vez que não existe em tibetano um termo específico para traduzir a palavra “emoção”, podemos encontrar atualmente livros em que Sua Santidade Dalai Lama debate com psicólogos ocidentais a utilização da palavra. Há interessantes discussões sobre o assunto nos livros Emoções que Curam e Como lidar com Emoções destrutivas, organizados por Daniel Goleman. Neste último, cientistas e psicólogos chegam a uma definição funcional: a emoção é um estado mental que tem um forte componente sensível. Mas o Dalai Lama esclarece: “O fato de existir um termo específico para definir emoção no pensamento ocidental não implica que se deu ênfase especial ao entendimento da natureza da emoção. Talvez inicialmente a motivação para rotular algo como emoção tenha sido valorizar a razão, identificando algo que não é racional”.

O monge budista Matthieu Ricard, intérprete do Dalai Lama, esclarece ainda em outro trecho do mesmo livro: “A palavra inglesa emotion provém da raiz latina emovere – algo que põe a mente em movimento, tanto para atividades prejudiciais, quanto neutras ou positivas. No budismo, por outro lado, chamaríamos de emoção algo que condiciona a mente e a faz adotar certa perspectiva ou visão das coisas”.

Quando encontrei o budismo, uma de minhas primeiras perguntas ao Lama Gangchen Rinpoche foi a respeito das emoções. Em minha visão errônea, os budistas eram pessoas que haviam subjugado todos os seus conflitos, e por isso viviam continuamente em estado de equilíbrio, o que, para mim, os tornava inabaláveis, mas também, de certo modo insensíveis. Se eu praticasse o budismo, tornar-me-ia uma pessoa sob total “autocontrole”, fria e sem emoções? As emoções impediriam meu desenvolvimento espiritual? Se assim fosse, achava que seria totalmente impossível seguir esse caminho, pois reconheço que sou uma pessoa altamente emocional e vulnerável às influências externas do tempo, das pessoas, do ambiente e principalmente dos sons. Por outro lado, sempre soube que é justamente a minha sensibilidade que torna possível meu desenvolvimento espiritual. Lama Gangchen Rinpoche gentilmente me respondeu: “Não há nada de errado em ser emocional. Por meio do budismo, você vai aprender a seguir as emoções positivas e deixar as negativas”.

As emoções positivas nos dão uma perspectiva mais ampla das situações, isto é, nos dão clareza e confiança em nossos propósitos: onde estamos e para onde queremos ir. Elas nos trazem a sensação de felicidade, pois o sentido da vida torna-se energeticamente presente. As emoções negativas nos deixam descrentes e confusos quanto a nossas metas. Quando perdemos o significado da vida, sentimos uma profunda tristeza.

Como a fé e a compaixão, as emoções positivas são virtudes mentais: energia positiva acumulada. Elas nos revitalizam, despertam determinação e interesse em obter novos conhecimentos e renovar nossas atitudes: uma vontade sincera de mudar para melhor.

Uma vez que as emoções positivas nos tornam disponíveis para o novo, tornamo-nos flexíveis e abertos. Interessados em aprender, sentimo-nos vivos, despertos. Portanto, as emoções positivas são reparadoras. Elas provocam bem-estar e nos ajudam a superar as emoções negativas que, por sua vez, consomem nossa energia vital, deixando-nos exaustos e depressivos.

“Essencialmente, a emoção destrutiva – que é também chamada de fator mental ‘obscurecedor’ ou ‘aflitivo’ – é algo que impede a mente de comprovar a realidade como ela é. Na emoção destrutiva, sempre haverá uma lacuna entre o que parece e o que é”. Pois quando nossas opiniões estão contaminadas por uma emoção negativa, temos uma imagem distorcida das coisas e das pessoas, e ficamos impedidos de equilibrar suas qualidades positivas e negativas.

Quando somos movidos pelo apego excessivo, pela aversão ou pelo ressentimento, por exemplo, ficamos rígidos. Amarrados às nossas idéias fixas, tornamo-nos intolerantes e sem perspectiva. Não estamos, portanto, disponíveis às mudanças: presos a nossos hábitos negativos, perdemos a habilidade de nos movermos em direção a novas possibilidades.

As emoções negativas inflam o ego e criam exageros que acabam por desencadear separações, ciúmes, inveja, baixa auto-estima e doenças físicas.

As emoções positivas geram estados mentais construtivos como o amor-próprio, a boa auto-estima, sentimentos de integridade, de solidariedade, de generosidade e compaixão, e por isso nos tornam empáticos com sabedoria: somos capazes de perceber a nós mesmos e aos outros ao mesmo tempo e, assim, agir de acordo com as necessidades reais da situação.

A prática da filosofia budista nos ajuda a desenvolver a inteligência emocional: a “capacidade de criar motivações para si próprio e de persistir num objetivo apesar dos percalços; de controlar impulsos e saber aguardar pela satisfação de seus desejos; de se manter em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar; ser empático e autoconfiante”.

O budismo nos ajuda a desenvolver a autoconsciência, isto é, a capacidade de identificar um sentimento quando ele surge e a habilidade de discernir as emoções construtivas das destrutivas.

A anatomia das emoções segundo a Psicologia Budista

Segundo o budismo tibetano, a natureza da mente sutil do ser humano é potencialmente pura como a energia de um puro cristal. No entanto, está contaminada por três grandes venenos mentais: o apego, a raiva e a ignorância. Estes, por sua vez, são resultantes de um grande veneno mental: o fato de pensarmos que as coisas existem por si só e que são permanentes.

Nada existe por si só, tudo está interligado. Apesar do seu aspecto permanente, tudo está em constante transformação. Podemos compreender estas verdades racionalmente, mas agimos instintivamente como se as coisas e as pessoas existissem em si e por si próprias, a partir delas mesmas. Nossa percepção da realidade está distorcida. Da mesma forma, sabemos que vamos morrer um dia, mas vivemos como se fôssemos imortais.

Podemos até perceber nossa ignorância, mas enquanto a base de nosso ambiente interno for o medo e a dúvida, continuaremos presos a nossos hábitos mentais distorcidos. Enquanto pensarmos que somos pessoas carentes e inadequadas, não seremos capazes de reconhecer nossa base interna positiva!

A anatomia das emoções conforme a psicologia budista é descrita no Abhidharma (que na língua pali dos tempos de Buddha significa “a doutrina final”), o texto original da epistemologia do budismo, onde são elaboradas as investigações originais de Buddha sobre a natureza humana.

Segundo o Abhidharma, todos os seres são compostos de fatores mentais ou “Nama”, e fatores materiais ou “Rupa”. O indivíduo é um “Nama-rupa”. Nama denota tanto a consciência como os estados mentais. Assim, o Abhidharma enumera 51 tipos de estados mentais.

Ainda de acordo com o Abhidharma, existem 89 tipos de consciência. Destas, 80 são características do ser comum, e as 9 restantes são próprias daqueles que atingiram um desenvolvimento espiritual superior.

A psicologia budista descreve nos “sankharas”, ou estados mentais generalizados, Seis Emoções Básicas (Seis Venenos-Raiz ou Aflições mentais); Vinte Emoções Secundárias; Onze Fatores Mentais Virtuosos; Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos.

As Seis Emoções Básicas são (em itálico, os termos em tibetano):
1. Apego, isto é, desejo ou ansiedade por possuir – Dö.Tchag
2. Raiva, hostilidade, ódio – Kong.tro
3. Ignorância, ilusão – Ma.rig.pa
4. Orgulho, arrogância – Nga.guiel
5. Dúvida ou suspeita – Te.tsom
6. Visões falsas ou errôneas – Ta.wa.nyon.mon.tchen

Destas, as três primeiras são as mais graves, por isso, são chamadas de Os três Venenos Mentais.

As Vinte Emoções Secundárias, derivadas de algumas Emoções básicas, conhecidas também como Os Vinte Fatores Afins da Instabilidade, são:

Raiva
1.Irritação, agressividade ou indignação – Tro.wa
2.Ressentimento ou rancor – Kön.dzin
3.Hipocrisia ou dissimulação – Tchab.pa
4.Malevolência ou animosidade – Tseg.pa
5.Inveja ou ciúmes – Trag.dog
6. Crueldade ou malícia – Nam.Tse

Apego
7. Avareza – Ser.na
8. Excitação mental – Go.pa
9. Arrogância ou presunção – Guia.pa

Ignorância
10. Desatenção – She.Shin Min.pa
11. Melancolia ou Mente Pesada – Mug.pa
12. Falta de confiança ou Incredulidade – Ma.te.pa
13. Preguiça – Lê.lo
14. Falta de atenção introspectiva ou esquecimento – Dje.nhe

Ignorância + apego
15. Falsidade ou pretensão – Guiu
16. Desonestidade – Yo

Ignorância + apego + raiva
17. Impudência ou ausência de vergonha – NgoTsa Med.pa
18. Falta do senso de propriedade ou desconsideração – Trel.Me.pa
19. Desinteresse – Bag.me
20. Distração – Nam.yen

Os Onze Fatores Mentais Virtuosos são:
1. Fé – De.pa
2. Sentido do que é correto – Ngo.Tsa.she.pa
3. Consideração pelos outros – Trel.yo.pa
4. Desapego – Ma.tchag.pa
5. Não-raiva ou imperturbabilidade – She.dang.me.pa
6. Não-confusão – Ti.mug.me.pa
7. Perseverança entusiástica – Tson.dru
8. Flexibilidade – Shintu.djang
9. Retidão mental – Bag.yo
10. Não-violência – Nam.par.mi.tse.ba
11. Equanimidade – Tang.nhön

Os Quatro Fatores Mentais que podem ou não ser virtuosos são:
1. Dormir – nhi
2. Arrependimento – Guio.pa
3. Investigação geral – Tog.pa
4. Análise – Tcho.pa

O Abhidharma distingue entre os fatores mentais que são puros, saudáveis e os que são impuros e prejudiciais. O critério usado para fazer essa distinção foi a observação dos fatores mentais que contribuem para a meditação e para o desenvolvimento espiritual.

As emoções positivas encontram-se, na maioria das vezes, encobertas por emoções negativas. A psique humana é formada por camadas mentais: experiências que se sobrepõem e se sustentam umas às outras. Por esta razão, o desenvolvimento espiritual é comparado ao ato de descascar uma cebola: cada camada retirada expõe as qualidades da camada que está abaixo, até desvendar seu núcleo, que é verdadeiramente puro e positivo. Portanto, o budismo nos inspira a entender que no exato momento em que sentimos raiva, temos também a não-raiva como um realidade emocional subjacente à ela.

Ou seja, nossas emoções negativas não podem contaminar nossa natureza essencial - o núcleo de nossa mente -, mas podem encobri-la. Se elas fossem inerentes à mente, não haveria sentido em nosso trabalho de removê-las! Para nos desenvolvermos interiormente, é essencial perceber que é possível nos libertarmos delas.

Chögyam Trungpa, um renomado mestre do budismo tibetano, define o núcleo central e saudável de nossa mente como a bondade fundamental dos seres humanos. Assim, diz ele: “O primeiro passo para perceber a bondade fundamental é valorizar o que temos. Em seguida, porém, deveríamos ver mais longe e examinar o que somos, quem somos, onde estamos, quando somos e como somos enquanto seres humanos, para então sermos capazes de tomar posse da nossa bondade fundamental. Não se trata de uma ‘posse’, mas de todo modo nós a merecermos”.

A mente pura como cristal está sempre presente; no entanto, depende de nosso ambiente interior para se manifestar. Isto é, necessita de constante abertura, confiança e coragem para olhar o que quer que surja em nossa vida com compaixão e entendimento.

Chögyam Trungpa esclarece ainda: “A bondade fundamental está estreitamente vinculada à idéia de Bodhichitta na tradição budista. Bodhi significa ‘desperto’ ou ‘alerta’ e chitta quer dizer ‘coração’; Bodhichitta, portanto, é o ‘coração desperto’. O coração desperto provém de estarmos dispostos a enfrentar nosso estado anímico. Essa exigência pode parecer excessiva, mas é necessária. Cada um de nós deve examinar-se, perguntando quantas vezes tentou um contato pleno e verdadeiro com seu coração”.

No caminho do autoconhecimento, temos que ficar atentos às desculpas que usamos para não buscar nossa evolução. Não podemos nos acomodar nem confundir estabilidade com estagnação ou segurança com resistência à mudança.

As emoções destrutivas nos deixam inquietos e inseguros. Se, por exemplo, estamos preocupados em buscar formas de garantir a continuidade de um prazer, perdemos a espontaneidade e deixamos de apreciar o momento presente. O problema é que estamos tão habituados a nosso ambiente interno de tensão e expectativa que sequer nos damos conta de que estamos sofrendo.
As emoções positivas, ao contrário, são sempre realistas e construtivas. Com elas, nos aquietamos e sentimos disponibilidade para nos abrirmos para os outros.

Jeremy Hayward, discípulo de Chögyam Trungpa, escreve em O Mundo Sagrado: “Nossa bondade fundamental repousa na capacidade de vivermos de uma maneira plena, apaixonada, vívida e ativa; na capacidade de estarmos totalmente conscientes de nossa vida e de vivê-la irrestritamente, não importa as reviravoltas que possa dar; e na capacidade de cuidar tanto dos outros quanto de nós mesmos”.

Portanto, o ponto de partida é aceitar que podemos transformar nossa mente inquieta em uma mente de abertura e confiança: voltar “para casa”, como dizem os mestres budistas

Referências bibliograficas:
1 Editado pelo Prof. Dr. Friedrich Dorsch, Dicionário de Psicologia Ed. Vozes, p.297.
2 e 3 Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 167 e 89.
4 Mathieu Ricard em Daniel Goleman, Como lidar com Emoções destrutivas, ed. Campus, p. 90.
5 Daniel Goleman, Inteligência Emocional, Ed. Objetiva, p. 46
6 Ver Daniel Goleman, A Mente Meditativa, Ed. Ática, p. 132.
8 e 9 Chögyam Trungpa Shambhala. Ed. Cultrix p.47
10 Jeremy Hayward, O Mundo Sagrado, Ed.Rocco, p. 29.

Texto extraído do “O livro das Emoções - Reflexões inspiradas na Psicologia do Budismo Tibetano” de Bel César, Ed. Gaia. Compartilhe



Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
Email: contato@vidadeclaraluz.com.br
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