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Abandonando a dependência  
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Abandonando a dependência

por Rosemeire Zago


No artigo anterior, escrevi sobre a dependência, e devido ao número elevado de e-mails que recebi perguntando mais sobre o tema, estou dando continuidade a essa reflexão.

Todos nós nascemos dependentes e, enquanto crianças, dependemos dos pais para quase tudo, mas por que alguns adultos mantêm a dependência em algum grau de sua vida? Se analisar sua vida em todas as áreas será que encontrará algum tipo de dependência?

A dependência seja física e/ou emocional pode trazer muitos danos tanto ao corpo como para a mente e nem sempre nos damos conta da extensão de suas conseqüências. Por que em algumas situações nos sentimos tão frágeis e carentes que não conseguimos encontrar com facilidade nossa própria maneira de viver?

É imprescindível compreendermos e termos consciência de nosso valor pessoal para assumirmos a responsabilidade pelo próprio caminho. Sim, para muitos a responsabilidade pela própria vida é assustadora. Muitas pessoas acreditam que são responsáveis porque trabalham, acordam cedo, como a maioria dos mortais, mas se esquecem que a vida não se resume a apenas isso.

Quem cuida de suas roupas? E de sua alimentação ao chegar em casa? Quem mantém sua casa limpa, administra o que e quando deve ser feito? E o supermercado, quem compra seu sabonete, o papel higiênico, o sabão em pó para lavar suas roupas? Quem paga a conta de luz, água?

Muitas vezes algumas pessoas pensam que o fato de trabalharem e terem alguém que limpe suas casas é o suficiente. Esquecem-se de quantas coisas é preciso para manter uma casa organizada e uma vida independente. Parece que acreditam que a roupa fica lavada e passada e vai até o guarda-roupa, sozinha. Alguns ainda respondem que quem lava é a máquina de lavar, sim, mas quem coloca essa roupa na máquina, quem foi comprar o sabão para lavá-la? Quem a pendurou no varal ou colocou na secadora para que secasse? Pensam que a cama toda manhã se arruma por si só. Alguns acreditam que pai, mãe, esposa, ou quem quer que seja, tem a obrigação de fazer isso.

Temos sim, cada um a obrigação de cuidar daquilo que nos diz respeito e ponto. Se alguém faz algo para nós ou se fazemos para alguém, é feito como um gesto de carinho e o mínimo que se espera é que ao menos isso seja reconhecido. Quando tudo se encontra arrumado, organizado, é fácil acreditar que tudo foi feito num passe de mágica, ignorando quem fez e o tempo e carinho dedicado. Claro que tudo isso depende muito das necessidades de cada um e da maneira com que cresceu. Quem nunca precisou fazer nada por si mesmo, encontrando tudo pronto, por pais que queriam acima de tudo suprir todas suas necessidades, com certeza encontrará muita dificuldade em tornar-se independente.

Não me refiro também àquelas pessoas que fazem de tudo para os outros, as eternas boazinhas, sempre dispostas a ajudar, mas que, na verdade, também são dependentes, da aprovação e reconhecimento. Fazem de tudo para agradar, sempre com o intuito de ajudar alguém. O que não percebem é que estão presas num círculo vicioso. Deseja conquistar amigos, a família, os filhos, o chefe, os colegas de trabalho, o companheiro(a), para que assim possa acreditar em seu próprio valor enquanto pessoa, pois do contrário se sentem inseguras. Por que não simplesmente ser sem ficar tão preso ao ter?

Sermos nós mesmos é tomar decisões, ainda que possamos correr riscos, mas quem disse que a vida é um eterno acerto? Tomar decisões não para agradar aos outros, mas porque estamos usando, consciente e responsavelmente, nossa capacidade de ser, sentir, pensar e agir.

Sermos nós mesmos é eliminar a dependência que nos impede de crescermos, sem medo de ficar só. Quantas pessoas não mantêm relacionamentos afetivos, ainda que destrutivos? Ou ainda, usam roupas de grifes não porque se sintam mais confortáveis, mas para obterem aprovação das outras pessoas? Não nos deixar influenciar pelo consumismo, pelas idéias alheias, não significa abandonar completamente as pessoas, mas somente a dependência, muitas vezes doentia, dessas mesmas pessoas. Por que não ter a coragem de romper com as amarras internas e externas que impedem a conquista da liberdade?

Essa liberdade exige esforços, coragem, ousadia, sem nos permitirmos mais permanecer em situações ou relações que apenas nos manipulam e nos fazem sofrer. Por estarmos tão acostumados a voltarmos nossos olhos para fora pode ser difícil olharmos para dentro de nós e percebermos a riqueza de nosso mundo interior. A realização interior tão almejada está relacionada com o conhecimento de nós mesmos, e dificilmente é possível conseguir olhar para dentro enquanto houver a dependência no externo. E a pior dependência ainda é a busca pelo reconhecimento e aprovação, seja de quem for.

Todo ser humano precisa de reconhecimento pelo que faz, mas há uma diferença enorme entre querer esse reconhecimento de uma maneira sadia e depender do reconhecimento exterior por sentir-se incapaz de reconhecer por si mesmo. Não lhe compete mudar o mundo, mas com certeza poderá mudar o que quiser dentro de si mesmo e de sua própria vida.
Para abandonar a dependência é necessário identificar em que áreas de sua vida ela se faz presente. Isso requer alguns minutos de reflexão:



- Observe-se. Perceba quantas vezes não está fazendo algo com o intuito de receber aprovação de alguém. Como reage quando faz algo e não recebe o reconhecimento de ninguém?

- Reflita se sua dependência extrema no outro não está relacionada com sua educação nos primeiros anos de vida, onde faziam tudo por você, deixando a nítida sensação de que não era capaz de fazer, e hoje, mesmo depois de anos, você mantém esse mesmo padrão.

- Conscientize-se do quanto pode estar acomodado em determinada situação apenas por conveniência, acreditando que o outro tem a obrigação de fazer algo por você. Procure fazer alguma coisa que geralmente costuma pedir a outra pessoa que faça por você. Seja ir ao banco pagar uma conta, lavar seu carro, arrumar sua cama, lavar ou passar suas roupas, escolher um presente para alguém, pegar um copo d' água, entre outras coisas.

- Assuma responsabilidades. Reveja as situações que hoje são assumidas por outra pessoa, mas que dizem respeito à sua vida. Está procurando emprego? Por que esperar seu irmão ou amigo levar seu currículo para uma empresa? Sua relação afetiva está desgastada? Por que esperar que o outro perceba e faça algo? Por que você não faz sua parte e propõe uma conversa franca? Seu trabalho tem sido a causa de sua insatisfação? Por que não revê seus objetivos ou procura algo que o satisfaça?

- Está adiando aquilo em que acredita? Evite adiar seus projetos ou qualquer outra coisa que deseje fazer, mas que está sempre deixando para amanhã e esse amanhã parece nunca chegar, porque na verdade, não se considera capaz.

- Quando disser "eu te amo", pense se na verdade o que sente é: "eu preciso de você".

- Acredite que você é capaz, por mais que o fizeram acreditar no contrário, de cuidar de sua vida e conduzi-la da maneira que acredita ser o correto. Ainda que isso possa trazer a reprovação de algumas pessoas.

- Reconheça cada passo conquistado. Olhe para trás e veja quantas coisas conquistou. Valorize-as!

Não, não é fácil sair da zona de conforto, que muitas vezes de confortável não tem nada, mas quando conseguimos ser responsáveis por tudo que envolve o cuidar de nós mesmos, nos permitimos exercitar a autoconfiança e percebemos que somos sim capazes de nos tornarmos seres dependentes apenas de nós mesmos! Portanto, olhe para dentro de você e não permita que ninguém, inclusive você mesmo, o impeça de perceber a riqueza de seu mundo interior! Aprove-se, reconheça, ame-se e dependa especialmente de você! Compartilhe


Rosemeire Zago é psicóloga clínica CRP 06/36.933-0, com abordagem junguiana e especialização em Psicossomática. Estudiosa de Alice Miller e Jung, aprofundou-se no ensaio: `A Psicologia do Arquétipo da Criança Interior´ - 1940.
A base de seu trabalho no atendimento individual de adultos é o resgate da autoestima e amor-próprio, com experiência no processo de reencontrar e cuidar da criança que foi vítima de abuso físico, psicológico e/ou sexual, e ainda hoje contamina a vida do adulto com suas dores.
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